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Para general que combateu no Araguaia, corpos de guerrilheiros não serão encontrados

Roldão Arruda

28 de novembro de 2013 | 23h03

Em depoimento à Comissão Nacional da Verdade, o general de brigada Álvaro de Souza Pinheiro, hoje na reserva, disse que considera “um desperdício de tempo” a busca de corpos de militantes de esquerda desaparecidos na Guerrilha do Araguaia. “É uma missão inglória, um desperdício de tempo, porque não vão chegar a lugar nenhum”, declarou.

Pinheiro participou das operações de combate ao grupo do Partido do Comunista do Brasil (PC do B) que pretendia implantar um foco guerrilheiro na região do Araguaia, no sul do Pará, no início da década de 1970. Ele foi para a área como integrante das Forças Especiais do Exército, da qual se tornaria, mais tarde, comandante.

Ao ser indagado sobre os corpos de desaparecidos, o general afirmou que, como combatente de primeiro escalão, não fazia parte de suas tarefas cuidar de restos mortais. “Essas coisas são atividades logísticas”, disse. “Quem está engajado no combate não tem conhecimento sobre corpo, sepultamento, nada.”

Logo em seguida, porém, acrescentou: “Esse negócio de dizer que enterrou, onde está enterrado, vão ficar procurando eternamente e não vão achar coisa nenhuma.”

Quando lhe perguntaram, na sequência, como podia afirmar que os corpos não seriam encontrados, uma vez que não sabia qual destino havia sido dado a eles, o general respondeu: “Acho difícil. Será que tem nexo pegar um sujeito que é um terrorista, um camarada caçado, um camarada que não tem o que perder, que tem uma vida clandestina, que se afastou da família, etc, tem cabimento enterrar ele num cemitério? Eu não vejo essa coisa. Então acho muito difícil que se encontre isso.”

O depoimento do general ocorreu no dia 12 de novembro, no salão nobre do Arquivo Nacional, no Rio. A sessão foi fechada, mas, no final da semana passada o áudio com as declarações do general começou a ser reproduzido em sites de grupos militares que se opõem à investigação de denúncias de violações de direitos humanos cometidas pelas Forças Armadas na ditadura. A divulgação foi ampliada nesta semana.

De acordo com assessores da Comissão, a iniciativa de divulgar o material foi do próprio general, que gravou o depoimento.

Pinheiro falou durante 1h30. Deliberadamente, deu poucas informações sobre os 247 dias em que passou no Araguaia, sobre o ferimento a bala que sofreu em 1972 e sobre os corpos nunca localizados. Pelas estimativas de familiares e ex-presos políticas, do total de 138 desaparecidos políticos do País, quase a metade estaria naquela área.

No depoimento, o general seguiu a estratégia do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-comandante do DOI-Codi de São Paulo, que aproveitou a convocação da Comissão Nacional da Verdade para atacá-la.

“A Comissão Nacional é uma farsa. Carece de legitimidade e credibilidade. É revanchista. Pretende que se repita aqui o que acontecendo na Argentina da Cristina Kirchner”, disse Pinheiro. “A verdade tinha que ser achada dos dois lados. E está sendo feito de um lado só. É uma canalhice sem tamanho.”

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