“Príncipe imperial” critica papa Francisco por convite a MST
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“Príncipe imperial” critica papa Francisco por convite a MST

Roldão Arruda

19 de fevereiro de 2014 | 22h30

A pedido do deputado Lael Varella (DEM-MG) foi registrado nos Anais da Câmara o texto de uma longa mensagem enviada no dia 8 deste mês ao papa Francisco pelo dirigente da organização Paz no Campo, Bertrand de Orleans e Bragança – que é bisneto da princesa Isabel de Bragança e Bourbon e se apresenta como dom Bertrand, príncipe imperial do Brasil.

No texto, o suposto herdeiro imperial fala em consternação, choque e espanto diante do convite feito pela Academia Pontifícia de Ciências a João Pedro Stédile, do Movimento dos Sem Terra (MST), para participar de um seminário sobre exclusão social, em Roma, com despesas pagas pelo Vaticano.

Segundo o autor da mensagem, Stédile não passa de um agitador de esquerda, defensor da luta de classes e dirigente de um movimento que, sob inspiração da Teologia da Libertação, “combate obstinadamente a propriedade privada, inclusive por meio de ações violentas”.

Dom Bertrand diz: “Não posso deixar de me perguntar, Santo Padre, qual a razão de que esse paladino de uma utopia revolucionária tão visceralmente anticristã e promotor da violação sistemática das leis tenha sido convidado.”

O encontro do qual Stédile participou, na condição de observador, aconteceu em Roma, no dia 5 de dezembro. A mensagem do bisneto da princesa foi postada mais de um mês depois, no dia 8 de janeiro, às vésperas do encontro nacional do MST em Brasília. O deputado Varella subiu à tribuna logo depois, no dia 12 – o mesmo dia em que os militantes do movimento marcharam pela Esplanada dos Ministérios e entraram em confronto com a polícia.

O texto também manifesta indignação pelo fato de ter sido convidado para o mesmo seminário no Vaticano o argentino Juan Grabois. Ele pertence ao Movimento de Trabalhadores Excluídos, que reúne catadores de papel, e foi um dos fundadores da Confederação dos Trabalhadores da Economia Popular da Argentina. Segundo o missivista, “esse advogado e militante da esquerda peronista não esconde suas convicções abertamente marxistas”.

Os integrantes do Movimento Paz no Campo, coordenado por dom Bertrand, se consideram herdeiros da antiga Tradição, Família e Propriedade (TFP) – instituição de ultradireita, que se notabilizou nos anos 60 e 70 pelo apoio ao golpe militar. Seu fundador, Plínio Correia de Oliveira, é o principal inspirador do autor da carta ao papa.

Por causa de uma briga entre grupos que disputam o espólio de Oliveira, o suposto herdeiro da família imperial, de 72 anos, está legalmente proibido de utilizar o nome da TFP. Enquanto continua a briga na Justiça, ele se abriga sob a sigla Paz no Campo. Quase sempre associa ao marxismo os movimentos sociais que envolvem a posse da terra, sejam eles ambientalistas, quilombolas, indígenas ou de sem terra.

Em seu cabeçalho, a carta ao papa é apresentada como “reverente e filial mensagem a Sua Santidade”. A leitura atenta, porém, revela sobretudo a indignação de um grupo ultraconservador em relação aos movimentos de Francisco.

Ao lembrar, por exemplo, que o papa já havia convidado o líder argentino para subir ao palanque na Praia da Copacabana, durante a Jornada Mundial da Juventude, além de lhe conceder uma audiência em sua residência, em Roma, o autor indaga se não estaria pendendo para o marxismo: “Envolveriam estes gestos de Vossa Santidade um apoio à linha traçada pelo ideólogo Juan Grabois?”

Em outro momento, a carta afirma: “Nos recintos do Vaticano ecoam as elucubrações anticapitalistas de Karl Marx.”

O título da mensagem – Quo vadis, Domine? (Aonde vais, Senhor?) – também é sintomático dessa preocupação

O nome do deputado Varella apareceu com destaque, em setembro do ano passado, numa reportagem do programa Fantástico, da TV Globo. Era sobre uma investigação do Tribunal de Contas da União (TCU) envolvendo a locação de automóveis por parlamentares.

A investigação surgiu após a verificação de que um grupo de mais de vinte congressistas usavam serviços de empresas que não eram do ramo, como padaria, loja de material de construção, restaurante, revenda de material de limpeza. Varella alugava carros da empresa Faxinão.

Em sua defesa, o deputado disse que não havia nada de irregular na operação e que uma empresa pode legalmente ter dois tipos de negócio. “É comum. Não tem nada estranho. Não tem nada ilegal. Tem nota fiscal, tem contrato bem feito. Tudo pago com cheque nominal. Tudo bonitinho”, assegurou.

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