Os sindicatos, mais ricos e menos capazes de mobilizar
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Os sindicatos, mais ricos e menos capazes de mobilizar

Roldão Arruda

12 de julho de 2013 | 21h19

Fui à Avenida Paulista, na quinta-feira, 11, para ver a grande concentração anunciada pelas centrais sindicais. Ouvi discursos durante mais de duas horas, diante do carro de som, misturado aos grupos que ali disputavam espaço.

A missão desses grupos era expor e divulgar o nome da central que representavam. Material para isso não faltava: passei todo o tempo submerso num mar de faixas industrializadas, cartazes, bandeirolas, bonés, camisetas e até balões enormes pairando diante do Masp.

Essa riqueza contrastava com a falta de ânimo e de interesse das pessoas. Elas não ouviam os discursos. Não mostravam interesse pelas propostas. Não aplaudiam. Não vaiavam. Não estavam nem aí.

Para qualquer lado que olhava, era inevitável lembrar dos rapazes e moças que, em troca de alguns reais, passam os finais de semana postados nas esquinas da capital paulista, com bandeirolas e cartazes, divulgando lançamentos imobiliários. Quem já viu, sabe do que estou falando.

Saí com a impressão de que as centrais deram um tiro no pé. Foram às ruas para mostrar força e capacidade de organização, mas acabaram expondo sua principal fraqueza: ao mesmo tempo que ficam cada vez mais ricas, se tornam menos capazes de empolgar e mobilizar os trabalhadores.

Eu não esperava o mesmo tipo de multidão que se viu nas ruas no início do mês passado e nem acho justo fazer comparações diretas entre as duas coisas. As marchas do mês passado podem ser comparadas a um caldeirão de insatisfações, organizado de maneira horizontal e no qual se agregavam grupos díspares e até antagônicos, oriundos quase exclusivamente da classe média.

O dia de luta das centrais era diferente. Tinha uma pauta definida de reivindicações, com foco principal na área econômica, e sua organização obedecia a um modelo verticalizado. Só podia falar, por exemplo, quem era indicado por alguma entidade participante e desde que obedecesse a um acordo prévio sobre o que podia e o que não podia ser dito.

Era de se esperar, portanto, um número de pessoas menor na Paulista. Mas não tão raquítico quanto o que se viu. Especialmente num momento em que o País inteiro mostra disposição para críticas e protestos.

Os sindicalistas sérios deveriam refletir sobre esse fato e, aproveitando o embalo, sobre o modelo sindical existente no País. Um modelo que torna os sindicatos cada dia mais ricos e mais distantes dos seus representados.

É claro que se pode pensar também em outras coisas: a grande massa de trabalhadores pode estar menos descontente que os setores de classe média que foram às ruas? O nível de emprego no Brasil ainda se mantém como um fator de contenção manifestações de protesto contra o governo? Ainda é preciso ainda encontrar o discurso adequado para animar os trabalhadores? E por aí afora.

Os discursos que ouvi na Paulista, por dever de ofício, eram de uma pobreza trágica. Não passavam de clichês enfileirados e gritados. Foram tantos que lembrei do livrinho Contra o Estilo de Clichê, de Mao Tse Tung, do meu tempo de movimento estudantil. Ironizando líderes revolucionários que escreviam artigos longos e recheados de expressões gastas e vazias, o líder chinês dizia que o único objetivo deles só podia ser o de impedir que fossem lidos pelas massas.

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