‘Opções conservadoras do eleitorado não casam com protestos de 2013’
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‘Opções conservadoras do eleitorado não casam com protestos de 2013’

Protestos de 2013 foram interpretados como sinal de desejo de mudanças. Como explicar agora as opções conservadoras do eleitorado? Em São Paulo, o ex-governador Paulo Maluf é um dos mais cotados para o Legislativo. No Rio, o candidato ao governo indicado por Sérgio Cabral, que foi alvo de repetidos protestos, desponta como favorito. Para o sociólogo Wagner Iglecias, pode ser que as manifestações tenham sido superestimadas. O grosso do eleitorado não estava nas ruas

Roldão Arruda

19 de setembro de 2014 | 16h14

Pesquisas sobre intenção de voto apontam que, entre os candidatos preferidos dos eleitores em São Paulo, aparecem os nomes de Tiririca (PR), Paulo Maluf (PP), Celso Russomanno (PRB) e Pastor Marco Feliciano (PSC). Maluf e Russomanno são figuras tradicionais da política, Tiririca se caracteriza como político folclórico e Feliciano tem o apoio de um eleitorado conservador, ligado a igrejas evangélicas. A pergunta que se faz é: o que esse tipo de candidato tem a ver com a grande manifestação de descontentamento a que o País assistiu, nas ruas, durante vários dias, em junho do ano passado? Na entrevista abaixo, o sociólogo Wagner Iglecias, da Universidade de São Paulo (USP), observa que esse tipo de comportamento está se repetindo em todo o País, para cargos no Legislativo e no Executivo. Há um claro descompasso, diz ele, entre o que houve nas ruas e o que está sendo revelado pelas pesquisas eleitorais. Ao buscar uma explicação, ele aponta duas possibilidades. A primeira é que foi menos gente à rua do que se acreditou. O eleitorado conservador teria ficado em casa, segundo o analista. A outra: até agora nenhum político conseguiu compreender e dar voz ao que as ruas disseram.

Acreditou-se que as manifestações de 2013 teriam impacto na eleição deste ano. Como o senhor vê o atual cenário?

O movimento de junho foi estimulante. Mas não está refletido nas pesquisas divulgadas até agora. Em nenhum lugar. A presidente Dilma Rousseff aparece liderando na corrida para a Presidência da República. Em São Paulo, a pesquisa aponta para Geraldo Alckmin, que não constitui nenhuma novidade ou renovação. No Rio, os destaques são Garotinho e Pezão. No Paraná quem lidera é Beto Richa, e, se não tivesse tido sua candidatura impedida pela Justiça Eleitoral, José Roberto Arruda seria o favorito ao governo do DF. Pelo que tenho visto, figuras tradicionais da política vão se eleger mais uma vez por todo o País. Existe um descasamento entre o que aconteceu nas ruas em junho de 2013 e o que a população manifesta nas pesquisas agora.

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Esperava uma renovação maior dos nomes?

Sim. Mas acho que não vai acontecer. Esse é o ponto cego dessa análise sobre o movimento de 2013 e as pesquisas eleitorais. Aquele sopro de renovação, o oxigênio que parecia ter saído das ruas, não se manifestou até agora.

Nem com a candidatura de Marina Silva?

Ela é o nome óbvio. Captura um pouco daquele desejo de mudança, mas não é de maneira completa. Lembremos que ela também conta com o voto de evangélicos, que é um voto conservador, de pessoas que, muito provavelmente, não estavam nas ruas em 2013. Retirando o nome dela, porém, não se vê renovação. A situação do Rio me impressiona bastante.

Por que?

As pesquisas indicam que o segundo turno será disputado entre Anthony Garotinho e Pezão. O que há de novo aí? Pezão é o candidato do ex-governador Sérgio Cabral – aquele que queriam tirar do poder. Os manifestantes ficaram acampados durante semanas e semanas diante da casa dele, protestando contra o seu governo. E, se tomamos como exemplo as pesquisas sobre candidaturas ao Legislativo, vemos que os líderes de intenção de votos são políticos muito conhecidos e tradicionais, como o Paulo Maluf e outros que estão sendo citados no caso do Estado de São Paulo.

A que atribui esse descompasso entre as ruas e as pesquisas?

Existem duas hipóteses. A primeira delas, a mais fácil, é a de que nos enganamos quanto ao tamanho das manifestações. Embora tenhamos visto milhares de pessoas nas ruas, com muita indignação, com bandeiras que pediam renovação, em todas as áreas e direções, da derrubada da PEC 37, que poderia impedir os promotores de realizar investigações criminais, à redução da maioridade penal, tudo indica que não foi uma parcela tão significativa da sociedade que foi às ruas, ou que se identificou com toda aquela movimentação. O grosso daquele eleitorado acabou se diluindo no conjunto da sociedade.

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Onde estavam os outros?

O mais provável é que a maioria do eleitorado, que é conservador e vota nos candidatos que estão no poder, não saiu de casa naqueles dias. Por outro lado nem todo mundo que foi para as ruas em 2013 era progressista. Mostrar insatisfação com o sistema político ou com um governo supostamente de esquerda não necessariamente é ser ainda mais de esquerda que este governo.

Qual seria a outra hipótese?

A segunda hipótese é que nenhum político com condições de agarrar essas bandeiras soube fazê-lo. Talvez a classe política não tenha conseguido ler ou entender até agora o que se passou. Talvez não consiga representar, vocalizar essa insatisfação.

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