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O voto dos pobres sempre causou polêmica

Ataques nas redes sociais não questionam a interferência dos grandes grupos econômicos nas eleições. Mas põem em dúvida o discernimento político dos pobres

Roldão Arruda

08 de outubro de 2014 | 23h03

Houve certo exagero na interpretação dada à fala do ex-presidente Fernando Henrique sobre o voto dos nordestinos. A afirmação dele de que o PT vem perdendo força nos grandes centros urbanos e se firmando nos grotões do País está explícita nos mapas eleitorais.  Seja por culpa do próprio PT ou do sistema político e administrativo em vigor, essa é a realidade.

Ainda deve ser levado em conta na polêmica o interesse do PT em dar ressonância à polêmica, estimulando o processo de polarização que já marcou outros pleitos – e que sempre o favorece.

Mas, FHC e estratégias eleitorais à parte, é importante analisar a explosão de manifestações de desprezo pelo voto dos nordestinos nas redes sociais desde a divulgação dos resultados do primeiro turno das eleições. Elas embutem um velho preconceito sobre a incompetência do povo para fazer escolhas políticas.

Ao longo da história do País sempre se difundiu a ideia de que as pessoas mais simples e pobres, especialmente as que não sabem ler, são incapazes de discernimento político. Por causa disso, segundo o mesmo raciocínio, podem ser facilmente enganadas ou corrompidas.

A primeira Constituição do Brasil, de 1824, previa que podiam votar todos os homens que tivessem mais de 25 anos, com renda mínima de 100 mil-réis. Ficavam de fora os pobres, as mulheres e os escravos.

Em 1881, sob a alegação de que precisava melhorar a qualidade das eleições, a Câmara mudou as regras. Elevou o nível de renda necessário e proibiu o voto dos analfabetos. Para se ter uma ideia do que isso significava, apenas 15% da população do País era alfabetizada na época.

Segundo o historiador José Murilo de Carvalho, no sempre recomendável livro Cidadania no Brasil, relançado agora pela Civilização Brasileira, essa mudança representou um corte de 90% do eleitorado.

As restrições de renda foram eliminadas após a Proclamação da República, em 1889. Mas mulheres e analfabetos continuaram afastados das urnas.

As eleições de 1933 foram as primeiras em que as mulheres votaram. Os negros continuaram, porém, praticamente à parte do processo eleitoral. Embora libertos e com direito à cidadania, a maioria deles não sabia ler e escrever.

A Constituição de 1946 definiu que todos os cidadãos com mais de 18 anos, homens e mulheres tinham direito ao voto. Mas manteve a restrição aos analfabetos – que representavam 57% da população.

O voto dos analfabetos era uma das grandes reivindicações dos movimentos políticos que agitavam o Brasil em 1964. Eles foram silenciados, porém, com o golpe militar, que tinha o apoio de grandes proprietários rurais, grandes empresas e partidos políticos que não eram bons de voto. Os golpistas aboliram as eleições diretas para os cargos de presidente e governador.

As eleições diretas para a Presidência da República só foram retomadas em 1989. Foi quando os analfabetos, que já não representavam nem 10% do eleitorado, puderam votar novamente.

A universalidade do voto havia sido assegurada um ano antes, com a Constituição de 1988. Ela também reduziu de 18 para 16 anos a idade mínima para se votar.

Nestes 25 anos de democracia, o voto universal tem sido sempre questionado. O nível de questionamento aumentou nos últimos anos, com as sucessivas vitórias do Partido dos Trabalhadores.

O que se diz é que os grupos eleitorais mais beneficiados pelos programas sociais de transferência de renda e localizados sobretudo no Nordeste é que estariam garantido a permanência do partido no poder. Não é uma inverdade. Os mapas eleitorais confirmam isso. E daí?

Os ataques nas redes sociais não questionam a intervenção de grandes instituições financeiras no processo eleitoral. Acham justo esses grupos apostarem no candidato que promete garantir mais lucros a eles.

O que eles põem em dúvida é o discernimento político dos pobres. Talvez tenha sido esse o raciocínio da Associação Comercial de Ponta Grossa, no Paraná, quando sugeriu uma mudança na legislação eleitoral, para retirar o direito ao voto de todos os beneficiários do Bolsa Família. Isso significaria retirar da cena eleitoral uma população aproximada de 55 milhões de pessoas.

O liberalismo no Brasil, como disse Carvalho em seu livro, sempre teve dificuldade para assimilar a participação popular.

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