Em Aparecida, papa ficou longe do Brasil profundo
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Em Aparecida, papa ficou longe do Brasil profundo

Roldão Arruda

25 de julho de 2013 | 01h22

João Paulo 2.º foi o primeiro papa a visitar o Brasil. Sua primeira missa em território nacional aconteceu no dia 30 de julho de 1980, uma segunda-feira. Foi na Esplanada dos Ministérios e diante de quase 800 mil pessoas. Durante a homilia ele se referiu aos riscos e perigos que o fiel católico corre quando “sucumbe à mística do hedonismo ou da glória, prazer ou do poder”.

O papa polonês gostava desse tema. Lembrei disso ao ouvir na quarta-feira, 24, o papa Francisco. No Santuário de Aparecida, na primeira homilia de sua visita ao Brasil, ele falou da mesma coisa. Referindo-se aos jovens, disse que “experimentam o fascínio de tantos ídolos que se colocam no lugar de Deus e parecem dar esperança: o dinheiro, o poder, o sucesso, o prazer.”

A homilia de João Paulo 2.º pode ser lida no acervo do Estadão. A do papa Francisco está no site da CNBB. Quem consultá-las verá que existem outros pontos comuns.

Os dois falaram na cruz como símbolo de esperança para os católicos. Os dois ressaltaram a importância dos bispos, dos padres, missionários e catequistas na divulgação do Evangelho. Mencionaram as raízes profundas da fé dos brasileiros. Não deixaram de se referir ao papel deles como condutores da barca de Pedro, mesmo mudando a ordem dos títulos.

João Paulo 2.º apresentou-se como “sucessor de Pedro, bispo de Roma e pastor da Igreja”. Francisco foi mais humilde: disse que é bispo de Roma, exercendo “o ministério de sucessor de Pedro”.

Não há diferenças nos aspectos gerais, dos fundamentos da fé católica. No plano social, os dois também comungam a crença, repetida há quase um século por todos os pontífices, de que é possível construir uma sociedade mais justa se o consumo não for considerado um valor acima de todos os outros.

Pode-se dizer então que o polonês Karol Wojtyla, apontado como conservador, e o argentino Jorge Maria Bergoglio,  saudado como progressista, são iguais? Não.

Lidas com atenção, as duas homilias também refletem as diferentes personalidades dos papas e o contexto histórico de cada uma. A de João Paulo 2.º tem um tom triunfante e afirmativo. Parece escrita para ser lida de cima para baixo. Espelha aquele momento histórico, no qual a Igreja vivia uma profunda crise interna. Uma das tarefas de Wojtyla era silenciar dissidências. Na época, Roma também não enfrentava a debandada em massa de fiéis e o crescimento das igrejas evangélicas na América Latina, até então um reduto católico inexpugnável.

A retórica do redator do papa Francisco é mais suave. Mais humilde. O texto parece feito para ser lido ao rés do chão, ao lado dos fiéis, agora bem menos numerosos.

Outra diferença fundamental envolve a Teologia da Libertação. Um dos motivos da visita de João Paulo 2.º ao Brasil era fortalecer o clero conservador e frear aquela corrente teológica – que prosperava na América Latina, especialmente entre pobres. Em Roma, o grande temor era a proximidade das teorias desse grupo com ideias marxistas.

Logo naquela primeira homilia, em Brasília, João Paulo 2.º deixou claro a que vinha. “Não se pode reduzir a missão da Igreja ao sócio-político”, disse na Esplanada dos Ministérios.

Quanto a Bergoglio, não citou a Teologia da Libertação nem seus ideais. Nem precisava: desprestigiada por João Paulo 2.º e Bento 16, ela perdeu força, espaço e tônus nas últimas três décadas. Pesa pouco no cenário religioso.

Se eles não são iguais, é possível afirmar que Francisco é mais progressista? Ainda não. A homilia de Aparecida não autoriza conclusões nessa direção. Ela é genérica. Nem raspa no Brasil profundo – que ainda é um dos campeões do mundo em termos de desigualdades sociais.

É provável que o papa ainda faça referências a questões sociais em outros pronunciamentos. Não se imagina que atravesse a Jornada Mundial da Juventude sem falar na crise do desemprego na Europa, que vitimiza principalmente os jovens.

João Paulo 2.º fez isso. Engrossou a voz em pronunciamentos feitos após a primeira missa. Naquele mesmo dia, numa recepção no Itamaraty, entre diplomatas, afirmou: “O bem comum de uma sociedade exige que seja justa. Onde falta a justiça, a sociedade está ameaçada.”

À noite, ao ser recebido para um jantar com o presidente da República, o ditador João Baptista Figueiredo, disse que a Igreja Católica, defende “o direito à vida, à segurança, ao trabalho, à saúde, à educação, à expressão religiosa privada e pública, à participação’.

O entusiasmo em torno de Bergoglio está lastreado até agora sobretudo em sinais exteriores. Destaca-se que é simples, carrega sua maleta de viagem, dispensa sapatos vermelhos e púrpuras, aprende português para se dirigir aos brasileiros, conversa informalmente com jornalistas.

Simbologia por simbologia, João Paulo 2.º foi longe. Com habilidades extraordinárias para aprender idiomas, chegou ao Brasil falando melhor o português que o argentino Bergoglio. No avião que o trouxe de Roma, foi até a ala reservada ao jornalistas e ficou muito à vontade.

“O papa polonês é inteiramente espontâneo e informal”, anotou o enviado especial do Estadão, o jornalista Leonildo Tabosa Pessoa. “Enquanto conversa com os jornalistas, ri e se apoia nos encostos das cadeiras, sem nenhum formalismo, como qualquer passageiro.”

Enfim, Bergoglio pode trazer sopros renovadores, como preveem os analistas. Mas ainda é cedo para estourar rojões.

Acompanhe o blog pelo Twitter – @Roarruda

 

 

publicidade

publicidade

Tendências: