O lado escuro da eleição
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O lado escuro da eleição

Após insultar os gays, Levy Fidelix conquistou oito vezes mais votos do que em 2010. E Jair Bolsonaro, que defende a ditadura militar e se opõe às cotas raciais para negros em universidades, quase quadruplicou a votação no mesmo período

Roldão Arruda

10 de outubro de 2014 | 21h05

O brasileiro criou uma imagem tão positiva dele mesmo que nem sequer se olha no espelho. Quando isso acontece, por causa de um evento qualquer, como uma eleição para presidente, ele se assusta.

A face que aparece refletida não é a do imaginário sujeito cordial, alegre, sentimental, expansivo, aberto à modernidade. Nada disso. O retrato no espelho tem uma metade obscura, patriarcal, machista e autoritária. Uma metade que ainda não se libertou da ideologia escravagista, uma metade refratária aos direitos humanos.

Veja-se a história de Levy Fidelix, que concorreu – mais uma vez – à Presidência da República pelo PRTB. Enquanto foi apenas um candidato folclórico, Fidelix não empolgou o eleitorado. Na eleição de 2010 recebeu apenas 57.960 votos. Neste ano, depois que mostrou sua face mais agressiva, insultando os homossexuais, o número de votos do candidato subiu para 446.878. Quase 8 vezes mais.

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Fidelix foi premiado porque ultrapassou os limites da homofobia de todo dia. Ele foi agressivo, grosseiro, estimulando explicitamente a “maioria” a “enfrentar” e segregar os homossexuais. Nem ditadores de países africanos que perseguem gays – e para os quais os brasileiros olham de cima, como se fossemos muito mais avançados – têm sido tão toscos.

É provável que, se continuar ofendendo minorias, o ex-aerotrem suba ainda mais no ranking eleitoral em 2018. A história do Pastor Marco Feliciano (PSC) é um indicador disso.

Após investir contra os direitos dos gays, dizer que os negros provém de um ramo da família bíblica inferior à dos outros humanos e desmantelar as atividades tradicionais da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, o pastor se elegeu como o terceiro deputado federal mais votado de São Paulo, com 398 mil votos. Foi quase o dobro dos 211 mil votos dados a ele em 2010.

No Rio, na corrida para a Câmara, o primeiro lugar ficou com Jair Bolsonaro (PP), direitista dos mais assumidos, que defende o golpe militar de 1964 e a ditadura que veio a seguir. Ele também é contra políticas afirmativas para a população negra, como as cotas raciais nas universidades, e a extensão de direitos civis aos homossexuais. A votação de Bolsonaro neste ano (467 mil votos), foi quase quatro vezes maior que a recebida em 2010.

Os sinais dessa face obscura do brasileiro que se imagina luminoso podem ser detectados por todo o País. Mas Rio e São Paulo chamam mais a atenção por causa da imagem que esses Estados têm deles. O Rio seria o lugar do alto astral e da abertura no campo dos costumes. São Paulo, a locomotiva industrial e moderna que puxa e conduz o resto do País.

O Brasil precisa se olhar mais no espelho.

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