O general linha dura desceu ao porão, para salvar a prima
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O general linha dura desceu ao porão, para salvar a prima

Roldão Arruda

21 de maio de 2013 | 11h21

Era uma manhã de sábado quando o general Ednardo D’Ávila Mello, ao passar pela sede do comando do 2.º Exército, em São Paulo, recebeu um telefonema. O auxiliar que lhe passou a ligação disse que a pessoa do outro lado da linha se identificara como Newton Nunes D’Ávila Mello. Seria seu primo.

O general lembrou do nome. Era um primo com o qual o mantinha uma relação distante, um sujeito com ideias esquerdistas e que há muito tempo não via. Atendeu. Com voz calma e tranquila, como se estivesse em família, cumprimentou o primo e perguntou a que se devia o inesperado contato.

Corria o mês de outubro de 1975. Newton havia obtido o número do telefone do general com uma tia e estava nervoso. Esforçava-se para manter o controle da voz e não parecer desrespeitoso nem desesperado:

– É sobre a minha filha, a Sarita. Ela foi presa, Ednardo. Eu não vou me meter no seu trabalho, mas gostaria de pedir que fosse preservada. Estou preocupado. Ela é muito frágil.

O general ouviu, despediu-se e desligou, sempre tranquilo.

A filha do seu primo tinha 23 anos, era professora de história e militava na base do Partido Comunista Brasileiro – o Partidão, que, embora extinto oficialmente pela ditadura, sobrevivia na clandestinidade. Havia sido presa no desenrolar de uma mega operação repressiva, cujo objetivo era justamente o desmantelamento total daquela organização de esquerda.

A prisão ocorreu na casa dos pais dela. Enfiada numa perua, fora levada para a sede do Centro de Operações de Defesa Interna, o Codi, na Rua Tutóia. O lugar já era conhecida na época como um dos mais temidos centros de tortura de presos políticos do País.

Foi essa temível fama que levou o pai de Sarita a ligar para Ednardo. Era um gesto desesperado, porque, além das divergências ideológicas, já o ouvira o primo dizer que, quando se trata de comunista, não tem essa história de parente.

Não aconteceu nada com Sarita no sábado e o domingo. No início da semana, porém, foi levada de sua cela para uma sessão de interrogatório. Numa sala com pouca luz, rodeada por três agentes e diante de uma mesa, apresentaram-lhe uma série de fotos de militantes do PCB. Queriam que identificasse todos.

 Também estavam sobre a mesa duas ou três pequenas máquinas, que tinham manivelas e da qual saíam fios. Elas já ouvira falar delas: eram as chamadas “pimentinha” ou “maricota”, usadas para dor choques nos prisioneiros. Quando a manivela era girada mais rapidamente, as descargas elétricas aumentavam, causando queimaduras e convulsões.

Olhando as fotos, Sarita percebeu que eram todos rostos conhecidos. Vários frequentavam a casa de seus pais. Respondeu , no entanto que nunca vira nenhum deles.

Sabendo que mentiam, os agentes se aproximaram e começaram a ligar os fios a seus dedos. Nesse exato momento, porém, a porta se abriu e o comandante do 2.º Exército entrou.

Sarita nunca havia visto o general e num primeiro momento chegou a se emocionar, pensando que fosse o seu pai. Quando olhou melhor, porém, constatou que se tratava de um senhor incrivelmente parecido.

O general se aproximou, enquanto os militares recolhiam os fios e as maquinetas de choques. Olhou-a com atenção e disse:

–  O teu pai tem razão. Você é muito frágil. Vou mandar preparar um suco de laranja para você.

Foi só. Virou as costas e saiu. Sarita, recuperada do susto inicial, ainda gritou para ele:

– Eu aceito o suco. Mas desde que seja servido também para as minhas companheiras.

Retirada em seguida da sala, ela foi devolvida à cela. Dias depois, na sexta-feira, o pai a recebeu de volta em casa sem um arranhão.

O suco de laranja nunca foi servido e, durante os dias em que ainda permaneceu no cárcere, a prima distante do general teve que ouvir provocações dos carcereiros. Passavam pelo corredor gritando “traz um suquinho de laranja para a moça, traz uma maçãzinha”.

Essa história foi contada nesta segunda-feira, 20, por Sarita, que, aos 61 anos, continua ensinando história. Diante da Comissão Municipal da Verdade, na Câmara Municipal de São Paulo, ela disse que se tratava do primeiro depoimento público que dava sobre o caso.

Ao tentar explicar o comportamento do general, que só viu naquela ocasião em toda sua vida, observou:

– Tenho convicção de que ele sabia de tudo que ocorria no DOI-Codi e que foi até lá para certificar-se de que eu estava viva. Embora fossem os mandantes da tortura, os generais não confiavam na máquina deles. Por que teve que aparecer na minha frente, uma menina de 23 anos? Ele já tinha dado ordem, certamente, para que eu não fosse torturada, mas precisou ir lá, para ter certeza.

Sarita deixou o DOI-Codi exatamente no dia 24 de outubro de 1975. No dia seguinte, no mesmo lugar, um jornalista, também militante do Partidão, foi morto sob tortura. Chamava-se Vladimir Herzog.

O general continuou no comando do 2.º Exército até 17 de janeiro de 1976. O presidente Ernesto Geisel afastou-o do cargo assim que soube de outra morte ocorrida na instituição que estava sob o comando dele. Tratava-se agora do operário Manoel Fiel Filho, outro militante do PCB.

Ednardo morreu de câncer, aos 72 anos, no dia 14 de abril de 1984, no Rio. Desgostoso com a decisão de Geisel, pediu à família que dispensasse as honras militares em seu enterro.

Sabe-se que ele gostava de colecionar documentos, cartas e fotos de sua carreira política e militar. Todo o seu acervo, porém, permanece inédito, por decisão de sua filha. Entrou para a história como integrante do grupo de militares de linha dura que se opunham ao projeto de distensão política – arquitetada pelo general Golbery do Couto e Silva e executada por Geisel.

Na sessão de ontem, quando lhe pediram mais detalhes da prisão, dos agentes policiais e das companheiras de cela, Sarita disse que se lembra de pouquíssima coisa. “Acho que é uma forma de me defender do trauma que sofri”, afirmou.

Recordou-se, porém, que, no dia da visita do general, no final da tarde, serviram café com leite e pão com manteiga para todos os prisioneiros.

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