As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O Dia da Criança e a menina que não podia ir à escola

Hoje também é dia de lembrar de todos que contribuem para acabar com o trabalho infantil e com as diferenças no tratamento entre meninos e meninas

Roldão Arruda

12 de outubro de 2014 | 13h04

Ontem, no meio da página de um portentoso romance, parei e comecei a pensar no prazer que a leitura me dá. Foi quando lembrei de uma velha história sobre uma menina que não aprendeu a ler. Ela estava feliz da vida, começando a conhecer a construção das palavras, quando o pai resolveu que precisava dos braços dela na roça e cancelou a matrícula.

No ano seguinte, a mãe dela diz ao pai:
– Pompílio, essa menina precisa voltar pra escola.
– Esse ano não, Maria. Ela vai fazer falta aqui. Essa menina é o meu pé-de-boi.
-Pompílio…
-Ano que vem! Estudo não faz falta pra mulher.

A menina ouve, ano após ano, a mesma coisa. Adora o pai e sente orgulho quando diz que é seu ‘pé-de-boi’. Ao mesmo tempo, porém, fica magoada por não ir à escola com as amigas. Ela quer muito aprender a ler e a escrever.

Acha lindo, nas rezas na colônia da fazenda, à luz da lamparina a querosene, quando alguém lê uma oração. Ou um trecho daquelas letras miudinhas da Bíblia. Ou, mais lindo ainda, quando alguém abre o hinário e puxa uma música. Ler e cantar: quem pode querer mais? imagina a menina.

Ela cresce com essa mágoa, misturada com vergonha, de ser quase analfabeta. Consegue assinar o nome e, de maneira precária, soletrada, ler as palavras mais simples.

Por causa disso, quando casa e engravida pela primeira vez, jura que nenhum filho dela terá o mesmo destino. O marido, que mal sabe assinar o nome, apoia a ideia, mas de maneira desconfiada, quase apostando que não vai dar certo.

Não é fácil. Além de trabalhar muito para pagar escola e material escolar, atendendo em seu salão de cabeleireira até nos feriados e domingos, a jovem mãe tem que enfrentar a oposição de algumas das freguesas mais ricas. Dizem-lhe que é bobagem, que melhor seria se pusesse as crianças para trabalhar.

– Por que a sua menina não está aqui no salão, aprendendo a ser cabeleireira?
– Se quiser, acho um emprego para o seu moleque na máquina de arroz.

Ela ouve, sorri e observa, sem dizer nada, que o conselho só vale para os filhos da cabeleireira, da lavadeira, da costureira, da empregada doméstica, dos colonos de fazenda, os pobres. Os rebentos do fazendeiro, do juiz, do promotor, do médico, do dono da máquina de beneficiar arroz, do tabelião, estão todos na escola.

Os filhos da cabeleireira crescem, evoluem nos estudos e ela se vê obrigada a mudar. Em Jaguapitã, a cidadezinha do interior do Paraná onde mora com o marido e os filhos, só existem escolas de primeiro grau.

Em Londrina, a cidade grande, começa a vida do zero outra vez. Procura freguesas para o salão, revende de porta em porta roupa que compra na José Paulino em São Paulo, tenta montar com o marido um negócio de salgadinhos para vender na rua, come, sem tempo pra mastigar, o pão que o diabo amassou.

Mesmo com tanto trabalho,porém, os filhos são obrigados a trabalhar desde muito cedo. Mas sem abandonar os estudos – questão inegociável naquela família.

O esforço dá certo. E quando os quatro filhos, três homens e uma mulher, finalmente, estão encaminhados na universidade, ela decide realizar o sonho de menina: volta para a escola. Matricula-se num curso organizado pela Igreja Presbiteriana Independente de Londrina. No período noturno, após longas jornadas diárias de trabalho, atravessa, ao lado de jovens trabalhadores analfabetos, as quatro séries iniciais do ensino fundamental, o antigo primário.

Quando termina, a escrita ainda é incerta e a leitura trôpega, de fôlego curto. Mas já é um avanço, que lhe permite realizar outros dois sonhos: o primeiro é ler, mesmo que seja de maneira vagarosa, as reportagens que um dos filhos, ingressando na profissão de jornalista, está começando a escrever; o segundo, entrar para o coral da catedral, o Santa Cecília.

Agora ela já consegue ler as letras do hinário. Ler e cantar e louvar a Deus – quem pode querer mais? imagina a já velha senhora.

Eu sou um dos filhos daquela menina que não pôde ir à escola. Um daqueles quatro que nunca teriam ido para universidade, se dependesse dos conselhos que deram à minha mãe.

Lembro dessa história nas vezes em que penso nos prazeres da leitura, na passagem de algum trecho mais genial de um Garcia Márquez, um Vargas Llosa, Guimarães Rosa, Flaubert. Paro,penso e agradeço a ela: – Obrigado, dona Ozana.

Se estivesse viva, minha mãe teria feito 88 anos no último dia 4. Hoje, 12 de outubro, já teria ido cantar na catedral e estaria festejando Nossa Senhora Aparecida, de quem era devotíssima.

Ela é a minha homenageada nesse 12 de outubro, Dia das Crianças. Com ela homenageio todas as pessoas que, de alguma maneira, no governo ou fora dele, em associações de bairro, igrejas, organizações não governamentais, jornais, TVs, partidos, cargos parlamentares, estão contribuindo de alguma maneira para acabar com o trabalho infantil, erradicar o analfabetismo, combater a desigualdade de gênero e estimular a mobilidade social nesse País ainda tão atrasado e injusto.

Tendências: