Militares queriam prender Lina Bo Bardi, a arquiteta do Masp
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Militares queriam prender Lina Bo Bardi, a arquiteta do Masp

Roldão Arruda

09 de abril de 2014 | 18h06

A ditadura não gostava da arquiteta Lina Bo Bardi. A autora dos projetos do Museu de Arte Moderna de São Paulo (Masp) e do Sesc Pompeia, entre outros, enfrentou atritos com o regime autoritário em mais de uma ocasião. Na década de 1970 os militares chegaram a decretar sua prisão preventiva.

Quem revela esse episódio é o advogado Tales Castelo Branco. Em entrevista para o livro Advocacia em Tempos Difíceis: Ditadura Militar 1964-1985, lançado há pouco, ele recorda que Pietro Maria Bardi, diretor do Masp e companheiro de Lina, o procurou em seu escritório logo após saber que a prisão preventiva havia sido decretada. Estava preocupado e não sabia o que fazer, segundo o advogado.

A prisão preventiva se devia ao fato de Lina ter emprestado sua casa para uma reunião. Para os militares, porém, não foi uma reunião comum. Eles acusaram a arquiteta de abrigar o encontro de uma organização de esquerda que atuava na clandestinidade.

Lina não estava no Brasil. Tinha viajado para a Itália, para visitar a mãe. A maior dúvida do professor Bardi era se devia retornar ou ficar por lá mesmo.

Castelo Branco conta no livro que recomendou o retorno imediato. Se não voltasse, ela corria o risco de ser condenada à revelia e nunca mais pisar em terra brasileira.

Lina, já famosa por causa do Masp, inaugurado pouco antes, em 1968, voltou. O advogado conta que logo em seguida conseguiu a revogação da prisão preventiva na Justiça Militar e a absolvição. No julgamento teria ficado claro que, embora tivesse emprestado a casa, a arquiteta não participara da reunião.

A história pode ser lida com mais detalhes no livro. Vale recordar, no embalo da memória do advogado, outros dois episódios, relatados por mais de um estudioso da carreira da arquiteta, que mostram os seus atritos com o regime.

O primeiro teria sido logo no início da ditadura, em 1964, quando o Masp ainda estava em construção. Lina, que residia temporariamente em Salvador, foi exonerada do cargo de diretora do Museu de Arte Moderna da Bahia após ter se negado a liberar a área que ocupava para uma exposição de armamentos.

O segundo episódio teria ocorrido em 1965, ano em que organizou em Roma, com apoio do governo brasileiro, a exposição Nordeste do Brasil. Faltando poucos dias para a abertura, na Galeria de Arte Moderna de Roma, recebeu um comunicado da embaixada, informando que o evento fora suspenso por ordens superiores.

O que Lina ia expor eram sobretudo objetos de uso entre os nordestinos.Utensílios domésticos, brinquedos, colchas de retalhos, carrancas de saveiros, ex-votos, feitos de lata, madeira, barro, palha, pano.

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Para quem quiser conhecer um pouco mais de Lina, especialmente sobre a reforma da antiga fábrica de tomate que deu origem ao Sesc, Pompéia, vale a pena o texto de Marcelo Ferraz que pode ser lido na internet. Sobre a exposição proibida em Roma, revivida recentemente na Bahia, clique aqui.

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