Memórias, esperanças e polêmicas: os ventos do Vaticano II, 50 anos depois
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Memórias, esperanças e polêmicas: os ventos do Vaticano II, 50 anos depois

Roldão Arruda

04 de junho de 2012 | 16h06

Podem não acreditar, mas já fui coroinha. Ajudei missa na Paróquia São José dos Bandeirantes, em Jaguapitã, no Paraná. Isso aconteceu lá pelo início da década de 1960, quando a celebração ainda era em latim e o padre ficava de costas para os fiéis o tempo todo.

Não foi fácil. Suava com o latim e, distraído, confundia a hora da sineta e a ordem das galhetas, me atrasava com a patena e, mais de uma vez, já deixei apagar a brasa do turíbulo. Cadê a fumacinha do incenso, menino? O vigário, padre Francisco Sozzi, missionário italiano de ombros  largos e desprovido de pescoço, me corrigia apenas com o olhar, rajado de severidade e paciência. Talvez o Espírito Santo lhe assoprasse que pensamentos de meninos estão sempre adejando, sempre longe.

Não lembro quanto tempo demorei para decorar de ponta a ponta o latinório da missa, do In nómine Patris ao Deo grátias, nem se consegui acertar todos os passos com o vigário. Mas sei que, passado algum tempo, a coisa toda desabou. Uma lufada de vento arejou o missal, virou o padre de frente para os fiéis e pôs o latim de lado.

Esse vento tinha nome. Chamava-se Concílio Vaticano II. Foi depois dele que as missas começaram a ser rezadas na língua vernácula, palavra muito usada na época e que, na instituição milenar, tinha fumaças de coisa revolucionária.

Essa história está narrada aqui por dois motivos, como pequeno exemplo de como aquela assembléia mexeu com os católicos e como pretexto, para relembrar que neste ano se comemora o 50º aniversário da abertura solene do concílio, provavelmente o mais importante acontecimento da Igreja no século XX. Foi no dia 11 de outubro de 1962 que a Basílica de São Pedro amanheceu inundada pelas vozes do papa João XXIII e de 2.500 bispos, entoando o Veni Creatur Spiritus – um pedido ao Espírito Santo para que os iluminasse.

No dia seguinte, o jornal Estado dedicou a primeira página inteiramente ao assunto, como se pode ver na reprodução logo abaixo (para os leitores que desejarem ver a íntegra da página, basta clicar aqui ). O jornal cobriu todos os passos da assembléia, que só iria terminar em 1965, já sob o pontificado de Paulo VI.

 

O Vaticano II tem bastante a ver com os temas deste blog. Foi a partir dele que a Igreja abriu o diálogo com outras religiões, a Teologia da Libertação fincou raízes, parte do episcopado se envolveu mais com os direitos humanos, as Comunidades Eclesiais de Base (Cebs) ganharam destaque no debate de problemas sociais. No Brasil, as comunidades influenciaram a criação do Movimento dos Sem-Terra (MST) e ajudaram na formação do Partido dos Trabalhadores (PT).

O mais notável é que, passados 50 anos, o Vaticano II continua provocando debates. Alguns de seus grandes temas, como a democracia interna da Igreja, o ecumenismo, o diálogo interreligioso, a missa em latim, o papel dos leigos, o celibato, a participação das mulheres, entre outros, estão vivos e ganhando cores novas nas comemorações do cinquentenário.

O blog deve acompanhar estes debates até outubro. Para apresentar o tema aos leitores, seguem três indicações de leitura. A primeira é um artigo do cardeal Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, publicado no Estado no dia 12 de maio.  D. Odilo é o coordenador do grupo de trabalho que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) criou para as comemorações do aniversário.

A segunda é um livreto, de 60 páginas, com o título Revisitar o Concílio Vaticano II, escrito por d. Demétrio Valentini, bispo de Jales, interior de São Paulo. É uma introdução eficiente e didática ao tema e faz parte de uma coleção lançada pela Editora Paulinas, com o título Revisitar o Concílio.

D. Demétrio faz parte do grupo de bispos mais identificados com as pastorais sociais da CNBB e defende a ideia de que o governo da Igreja deve ser democratizado, com a revalorização do papel das conferências episcopais. Sobre esse tema, vale a pena clicar e ler a reportagem do jornalista José Maria Mayrink,  publicada também no Estado, no dia 4 de maio, durante a cobertura da Assembléia-Geral da CNBB.

LEITORES que desejarem enviar sugestões de documentos para publicação, artigos, textos com lembranças pessoais sobre o Concílio ou eventos relacionados podem fazê-lo pelo seguinte e-mail: roldao.arruda@grupoestado.com.br . Caberá ao editor do blog definir quais serão publicados. Os textos mais curtos terão preferência. 

Acompanhe o blog pelo Twitter@Roarruda

Nota do moderador: comentários são bem vindos. Mas comentários preconceituosos, racistas e homofóbicos, assim como manifestações de intolerância religiosa, xingamentos, ofensas entre leitores, contra o blogueiro e a publicação não serão reproduzidos. Não é permitido postar vídeo. Os textos devem ter relação com o tema do post. Não serão publicados textos escritos inteiramente em letras maiúsculas. Os comentários reproduzidos não refletem a linha editorial do blog.

publicidade

publicidade