Medicina da USP homenageia ex-guerrilheiro
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Medicina da USP homenageia ex-guerrilheiro

Roldão Arruda

15 Setembro 2012 | 00h03

Com Ivan Marsiglia

Cerca de 150 pessoas participaram nesta sexta-feira, 14, da cerimônia de comemoração do 99º aniversário do Centro Acadêmico Oswaldo Cruz (CAOC), da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. No evento, a Medalha Institucional do Centenário da Faculdade foi entregue – por indicação do Centro Acadêmico à Comissão de Centenário da FMUSP – ao psiquiatra Reinaldo Morano Filho, presidente do CAOC em 1969. No ano seguinte, Morano Filho, então no quarto ano, deixaria o curso para aderir à luta armada contra o regime militar na Ação Libertadora Nacional (ALN). Preso e torturado, ficou sete anos afastado da instituição antes de retornar para concluir seus estudos. A premiação marca uma inflexão histórica na tradicional Casa de Arnaldo, como é conhecida a Medicina-Pinheiros.

 “Reinaldo liderava os estudantes pelo exemplo, pela conversação. Nem a força da ditadura, nem a violência da tortura o quebraram: ele voltou intacto, em sua crença por uma sociedade mais igualitária, mas que primasse pelo diálogo e pela liberdade”, ressaltou em discurso Antônio Carlos Madeira, que o sucedeu na direção do CAOC – único centro acadêmico que jamais interrompeu suas atividades no País, mesmo após o decreto governamental que os extinguiu em todas as universidades, e que seria vítima de um incêndio criminoso em 1979.

 O ex-ministro da Secretaria dos Direitos Humanos, Paulo Vanucchi, que no final da década de 60 foi calouro de Morano Filho na mesma faculdade e esteve preso com ele nos porões da ditadura, compareceu à premiação: “É uma homenagem muito merecida. E singular, neste momento em que o Brasil começa a examinar seu passado na Comissão da Verdade de olhos voltados para a construção de um futuro mais livre e democrático”.

Libertado em 1977, Morano Filho foi impedido de retomar o curso por um preposto do regime autoritário na diretoria da faculdade. Só retomou sua matrícula e pôde se formar com um madado de segurança impetrado pelo advogado Luiz Eduardo Greenhalgh.

“Eu não quero disfarçar, e nem posso, a emoção deste momento”, agradeceu o ex-guerrilheiro, que se especializou em psiquiatria e usou sua formação na Sociedade Brasileira de Psicanálise para processar a terrível experiência da tortura – como contou em entrevista concedida ao Estado em maio , por ocasião da instalação da Comissão Nacional da Verdade.

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