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Manifestação pela volta da ditadura é ‘quase patética’, diz Dallari

Coordenador da Comissão Nacional da Verdade acha exageradas as reações às manifestações a favor de um novo golpe. Para ele, sociedade brasileira não vê na ditadura a solução para seus problemas

Roldão Arruda

08 Novembro 2014 | 00h32

Ao comentar nesta sexta-feira, 7, as recentes manifestações pela volta da ditadura militar, o coordenador da Comissão Nacional da Verdade, o advogado e professor Pedro Dallari, disse que vê certo exagero na forma como repercutiram. Embora a insatisfação dos brasileiros com a política e os políticos seja forte, “a sociedade não optou pela estratégia de buscar uma solução na ditadura”, disse ele.

“Está claro que a sociedade está descontente com a democracia como ela é, mas acha que a solução tem que ser buscada na democracia”, afirmou. “Isso é um ganho. Acho que a democracia se consolidou no Brasil  e que as pessoas exageram um pouco. Esse tipo de manifestação têm pouca gente e é quase patética.”

As declarações de Dallari foram feitas durante o Café Filosófico, programa semanal de entrevistas, produzido pela CPFL Cultura e transmitido ao vivo pela internet.  O coordenador estava acompanhado da psicanalista Maria Ritha Kehl, que também faz parte do colegiado que investiga graves violações de direitos humanos ocorridas no período da ditadura militar.

Ao comentar a manifestação realizada no sábado, 1, Dallari observou que ela acabou se dividindo: “Começaram a brigar, porque algumas pessoas queriam a volta da ditadura, enquanto outras eram contra o resultado eleitoral, mas não a favor da ditadura.”

Dallari também assinalou que essa não foi a primeira manifestação articulada em defesa da ditadura. Nenhuma delas, insistiu, tem adesões expressivas.

“Não vejo uma situação problemática para o Brasil sob esse aspecto. As manifestações no aniversário de 50 anos do golpe, em março, foram pífias. A tentativa de reeditar a Marcha com Deus, pela Família e pela Liberdade (ato que precedeu o golpe militar de 1964) foi um  espetáculo caricato”, afirmou. “O Clube Militar do Rio, que é muito organizado e reúne a reação militar, fez um evento fechado na Barra da Tijuca para lembrar a data, porque não tinha clima.”

A divulgação, pela Comissão da Verdade, de relatórios parciais sobre a violência que se abateu sobre o País durante a ditadura, segundo Dallari, têm contribuído para esclarecer a população sobre a importância da democracia.

Apesar dos avanços, o nível informação ainda é baixo, na avaliação feita por Maria Rita. Essa seria uma das causas das manifestações pela volta da ditadura.

“Um taxista disse para mim que, diante dessa bandalheira que está aí, o Brasil precisa dos militares para botar ordem”, contou. “A gente ouve isso de vez quando, seja por causa da violência, ou dos casos de corrupção, do tráfico. Mas o que acontece quando você suspende os canais democráticos, que são por onde a ordem pode se refazer, mesmo no caso do Estado corrupto, dos crimes da política? Quando esses canais estão abertos, com a imprensa e a população se manifestando, de maneira dinâmica, você fica indignado por saber dos malfeitos do Estado, mas ao mesmo tempo você está arejando isso. No Estado de exceção, não existem mais chances de botar ordem, porque a ordem passa a ser a ordem deles. Quando qualquer grupo é autorizado a fazer o que quer, vai fazer o que não deve. Não tem essa de que os militares vão botar ordem.”

Ainda segundo Maria Rita, as pessoas não deveriam se iludir com a ideia de que a ditadura foi “um regime duro porém limpinho”. Para ela, a democracia é melhor sob todos os aspectos. “Em relação à corrupção, hoje a gente sabe, ela tem nome, vai ser apurada, tem CPI. Não vai para baixo do pano. Tudo que é arejado contribui para a democracia.”

A psicanalista recusou-se a responder à pergunta de um convidado do Café Filosófico, por entender que estava defendendo a ditadura. “Se o senhor acha melhor uma ditadura do que que um governo eleito, cujos malfeitos podem ser debatidos, podem aparecer na imprensa, no debate eleitoral, e os autores punidos, eu só posso lamentar, porque não compartilho e não vale a pena discutir”, afirmou.

Os outros convidados aplaudiram.