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Lula e as pedras da história, no centro de São Paulo

Roldão Arruda

26 de junho de 2012 | 07h00

Ainda não se sabe a data certa da inauguração do futuro Memorial da Democracia, no bairro da Luz, pelo Instituto Lula. A época provável, segundo cálculos de assessores do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é o primeiro semestre de 2015. Imagens do projeto serão apresentadas oficialmente nesta terça-feira, 26, aos conselheiros do instituto e a um pequeno grupo de intelectuais convidados, conforme foi noticiado na edição impressa de hoje do jornal. Elas mostram que o edifício será inteiramente branco.

Ficará nas proximidades da Estação da Luz e do Memorial da Resistência, duas antigas construções de tom avermelhado, e da Sala São Paulo, cinza. Segundo os arquitetos que o projetaram, Marcelo Ferraz e Francisco Fanucci, do escritório Brasil Arquitetura, a escolha faz parte de um conjunto de preocupações destinadas a associar democracia e transparência.

No texto que prepararam para ser lido no encontro de hoje, na sede da Fiesp, os dois destacaram: “A arquitetura do Memorial da Democracia deve expressar solidez, transparência, claridade, multiplicidade, diversidade e urbanidade. Deve ser também convidativa, acessível, gentil.”

Para garantir que o edifício, de concreto armado e protendido, permaneça sempre branco, vão utilizar pela primeira vez no Brasil o chamado cimento autolimpante. Explicam: “Trata-se de um cimento branco com agregados como dióxido de titânio que, num processo catalítico, reage em contato com a poluição, conservando sempre o branco do edifício, sem necessidade de manutenção.”

Dois blocos

O complexo arquitetônico será dividido em duas partes. Uma delas abrigará o museu propriamente dito, com a história das lutas pela democracia. O outro, menor, guardará em dois pavimentos no subsolo o acervo que Lula acumulou em oito anos à frente da Presidência República. Os pavimentos superiores ficarão reservados para estudos, pesquisas, conferências, simpósios. Segue, em linhas gerais, o que foi feito Instituto Fernando Henrique, que funciona no centro de São Paulo, nas imediações do Teatro Municipal.

Os dois blocos serão divididos pela rua que atravessa o terreno de 4,3 mil m2 cedido pela Prefeitura de São Paulo ao instituto. A ligação entre eles será feita pelo alto, por meio de passarelas suspensas e envidraçadas. 

Na fachada mais ampla do edifício, voltada para a Rua Mauá, na Cracolândia, será fixada no concreto uma coleção de pedras provenientes de diferentes regiões do País. Dessa concentração original, ainda segundo explicações dos arquitetos, elas irão se rarefazendo pelas outras fachadas, até desaparecerem na parte mais estreita, uma espécie de cunha nos fundos do terreno em forma de triângulo cedido pela Prefeitura de São Paulo.

Durante a obra, no momento da concretagem das pedras, serão convidados representantes dos Estados de onde elas vieram. “Assim”, diz o texto dos arquitetos, “a arquitetura e sua construção já estarão incorporando o tema do memorial, reafirmando simbolicamente, com pedra e pedra de todas as partes, a luta pela conquista e construção da democracia.”

Entretenimento e interatividade

O custo da obra ainda não está certo. Fala-se em algo entre R$ 50 milhões e R$ 100 milhões, que deverão vir sobretudo da iniciativa privada. Os coordenadores do Instituto Lula também pretendem buscar apoio das organizações sindicais.

O ex-presidente Lula não participou diretamente de todas as etapas de preparação projeto, que começou a ser discutido um ano atrás. Em todos os momentos, porém, insistiu em duas questões. A primeira: que a história da luta pela democracia não seja contada exclusivamente a partir do ponto de vista de grandes personagens. Devem ser destacados, disse ele mais de uma vez, os movimentos populares, como as grandes greves de trabalhadores e a mobilização das Diretas Já. A segunda: a valorização do entretenimento e da interatividade.

É nessa parte da missão que entra em cena Gringo Cardia, especialista em montagens de museus interativos, que inclui no seu currículo profissional atividades como arquitetura, design, cenografia, produção de videos e CDs, entre outras. Venceu recentemente um concurso para cuidar do projeto de uma das seções do Museu da Cruz Vermelha, em Genebra. Trabalha agora no Museu do Trabalhador, que está sendo construído pelo prefeito Luiz Marinho (PT), em São Bernardo do Campo. Foi o responsável pelo Memorial Minas Gerais Vale, que conta a história daquele Estado.

Uma curiosidade: o arquiteto Marcelo Ferraz trabalhou com Lina Bo Bardi, no projeto do Sesc Pompéia, em São Paulo. Quem olhar com atenção o memorial que acaba de projetar reconhecerá alguns traços daquela obra. Como as passarelas que interligam os dois blocos do conjunto. O vão livre que se estende por toda a parte térrea, em duas quadras, poderá lembrar a área do Masp, também projetada por Lina.

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