Incapacidade do governo e problemas estruturais levaram ao impasse grevista, avalia especialista
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Incapacidade do governo e problemas estruturais levaram ao impasse grevista, avalia especialista

Roldão Arruda

18 de agosto de 2012 | 12h34

O governo da presidente Dilma Rousseff contradiz a história do PT ao propor o corte do ponto dos funcionários públicos em greve. No passado os petistas defendiam o direito à greve, sem o corte, lembra um estudioso do assunto, o professor Ricardo Antunes, do departamento de sociologia do trabalho da Unicamp.

O impasse existente entre o governo e os grevistas, segundo o estudioso, tem duas explicações. A primeira seria a total incapacidade da equipe da presidente para negociar com trabalhadores. Sob esse aspecto Dilma não tem qualquer tradição e adota uma atitude dura de tecnocrata, passando ao largo do estilo de seu antecessor no Palácio do Planalto. A segunda explicação é de origem estrutural e teria sido herdada dos governos de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso.

Como vê a queda de braço entre o funcionalismo público e o governo Dilma? Acha que se trata de incapacidade do governo para lidar com grevistas, ou seria uma questão estrutural?

As duas coisas. Era previsível que uma das lacunas desse governo fosse a incapacidade no trato questão social. Podia-se prever isso pela ausência, no passado de Dilma Roussef, de qualquer ação nessa direção. Seu governo não tem capacidade para tratar a questão social, dialogar com os funcionários do Estado. É o primeiro governo dos últimos anos que não tem ministros dialogando com os trabalhadores. O Ministério do Planejamento, que devia fazer as contas e programar tecnicamente as negociações, não tem lastro social.

Acha que Dilma já deixava entrever isso na campanha de 2010?

Essa é uma questão importante: nos embates com o candidato José Serra, Dilma não se cansava de dizer que seu governo trataria o funcionalismo com dignidade, que negociaria sempre e não reprimiria. Diante disso, parte considerável desse contingente de trabalhadores acreditou no que ouviu e votou na Dilma, contra o Serra. Agora estão percebendo que era só uma promessa de palanque.

E qual seria a questão estrutural?

Está ligada a um problema que começou no governo do presidente Fernando Collor e se agravou com Fernando Henrique Cardoso: o fatiamento e a completa desestruturação do funcionalismo público. Houve um desmonte do Estado e, nesse processo, cada setor passou a ter aumento diferenciado, negociações à parte, o que acabou desorganizando as relações entre os trabalhadores públicos e o governo e agravando a defasagem dos salários em relação à inflação. Em seu primeiro governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva manteve, mais ou menos, essa desorganização. No segundo, por vários motivos, entre eles a crise do mensalão, quando foi preciso recompor as bases de apoio do funcionalismo, Lula iniciou um processo de recuperação salarial e beneficiou alguns setores. Esse processo foi interrompido com a vitória eleitoral de Dilma.

Qual o cenário de hoje em relação aos salários?

Os setores com maior nível de organização e poder de barganha conseguiram aumentos próximos aos dos índices de inflação. Mas outros ficaram para trás. O salário de entrada de um professor doutor é menor do que o de um delegado, para não falar de um juiz, de um deputado, um assessor parlamentar. Esse é um problema estrutural, que a Dilma prometeu resolver na campanha. Agora estão batendo em sua porta com a cobrança.

E como eles são recebidos?

Após a vitória eleitoral, Dilma se mostrou uma gestora dura e tecnocrática. Na semana passada, lançou a máxima de que seu governo não está preocupado em preservar a estabilidade, mas sim com a garantia de emprego para os precarizados. Isso é muito preocupante, porque o funcionalismo precisa de estabilidade e de salários dignos.

E como fica o PT?

Os setores do funcionalismo que, no passado, frente à dualidade eleitoral entre PT e PSDB, acabavam optando pela saída que entendiam menos nefasta, ou seja, o PT, porque seria mais aberto à negociação, estão percebendo que a realidade não é bem assim. Então, diante de um governo duro, que não corresponde à premissa petista do passado, esse conjunto heterogêneo do funcionalismo organiza sua reação.

Um das principais dificuldades nas negociações refere-se ao corte do ponto dos grevistas.

O PT, no passado, sempre lutou pelo direito de greve e pelo não desconto dos dias parados. Qualquer pessoa que acompanhou a história do partido sabe disso. Agora, no governo, eles dizem que o direito de greve é legítimo, mas vão punir os grevistas com o não pagamento dos dias parados. Se você faz isso, os setores conservadores aplaudem, ficam efusivos, porque eles gostariam de privatizar o Estado inteiror. Mas os trabalhadores resistem. Eles precisam obter e garantir suas conquistas. Nós sabemos que o direito de greve é amplo na Constituição. O fato de não ter uma regulamentação não quer dizer que você não tenha direito de fazer greve.

Estamos diante de um impasse?

Sim, o primeiro grande impasse do governo Dilma ocorre na área social. Esse governo mostra uma incapacidade muito maior de negociar do que o governo Lula, que cometeu erros enormes, mas, na hora da negociação mostrava-se capaz. Até mesmo a CUT e a Força Sindical, que são setores próximos dos últimos governos, reconhecem a postura dura de Dilma e a dificuldade para negociar. O que ela vai fazer? Vai chamar o Exército para frear os movimentos sociais? Quem fazia isso era a ditadura e, ainda assim, em momentos excepcionais. Voltando ao que eu disso há pouco, estamos diante de um quadro no qual se conjuga uma desorganização do Estado, herdada dos anos 90, e uma incapacidade deste governo para reconhecer a legitimidade reivindicativa dos funcionários públicos.

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