Fotógrafo do corpo de Herzog não reconhece o DOI-Codi
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Fotógrafo do corpo de Herzog não reconhece o DOI-Codi

Roldão Arruda

27 de maio de 2013 | 22h29

“Não reconheço nenhum desses lugares”, disse o ex-fotógrafo Silvaldo Leung Vieira, após percorrer durante quase duas horas as antigas dependências do Departamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), em São Paulo.

Autor da emblemática foto do corpo do jornalista Vladimir Herzog, morto naquele local em 1975, Vieira frustrou as expectativas da Comissão Municipal da Verdade, que o trouxe de Los Angeles, nos Estados Unidos, especialmente para revisitar o local. Acreditava-se que poderia trazer novas informações sobre o caso e o centro de tortura mantido pelo DOI-Codi no número 921da Rua Tutoia, no bairro do Paraíso.

Vieira ainda estava no início de um curso de fotografia da Polícia Civil, quando, na madrugada do dia 26 de outubro de 1975, foi acordado e levado até DOI-Codi. Os agentes policiais disseram que iria documentar um “encontro de cadáver”. Ele imaginou que a atividade fizesse parte do seu treinamento.

No DOI-Codi foi conduzido até a porta de uma cela, de onde viu o corpo de Herzog, pendurado num cinto, pendendo de uma grade na janela. Deram-lhe tempo para apenas dois clics, dali mesmo, da porta, antes de pegarem o filme e o retirarem do local.

A foto de Vieira foi anexada a documentos oficiais, com o objetivo de provar que o jornalista, militante do Partido Comunista Brasileiro, havia cometido suicídio. O efeito, porém, foi inverso: a foto virou um instrumento de denúncia das torturas na ditadura militar.

A máquina era uma Minolta  SLR, como lembrou com precisão o ex-fotógrafo, que também citou detalhes da lente que usou. A foto mostra Herzog com os pés no chão e as pernas dobradas  – posição improvável para um suicida. Foi uma das primeiras provas anexadas aos processos que, na Justiça, iriam demonstrar que o suicídio fora forjado para ocultar torturas, a causa real da morte.

Nesta segunda-feira, Vieira voltou ao local, que já passou por várias reformas nos últimos 37 anos e abriga uma delegacia de polícia. Cercado de jornalistas, ex-presos políticos e membros da Comissão Municipal, ele se mostrou cauteloso. Não se lembrou de nenhuma das salas pelas quais passou nem do nome de qualquer agente policial ou militar envolvido. Ao falar de tortura, acrescentou que citava fatos que já são de conhecimento público.

“Foi uma coisa muito rápida. Tudo demorou menos que cinco minutos”, disse. “Não lembro do horário. Era, talvez, entre quatro e cinco horas da manhã. Estava escuro. A imagem que trago comigo é de um lugar escuro. Lembro de um muro alto e um portão de ferro.”

Ela também se lembra de ter caminhado por um corredor de celas, até a porta de onde viu Herzog. “A janela da cela ficava de frente para a porta. Foi uma coisa rápida. Tudo demorou menos que cinco minutos.”

Sobre o que viu da porta, comentou: “O que chamou a atenção foi que estava com os dois pés no chão… É difícil cometer suicídio assim. Normalmente você se dependura em algum lugar… Não sei de casos de pessoas que estão com os pés no chão e cometem suicídio.”

Vieira terminou o curso de fotografia três meses depois e continuou executando serviços para a polícia até 1979. Naquele ano mudou para os Estados Unidos, onde permanece até hoje. Trabalhou durante anos como joalheiro e atualmente está empregado num centro de acolhimento para mães solteiras, mantido pela Igreja Católica.

O seu primeiro depoimento público sobre o episódio ocorreu no ano passado, quando foi descoberto em Los Angeles pelo repórter Lucas Ferraz, da Folha de S. Paulo. As declarações que deu ontem em São Paulo praticamente repetem o que já havia dito ao jornalista.

Para o presidente da Comissão Municipal, o vereador e ex-preso político Gilberto Natalini (PV), o fato de Vieira não reconhecer o local se deve às reformas que desfiguraram as áreas onde ficavam as celas. Ele também disse que a vinda do ex-fotógrafo ao Brasil ajuda a lançar luzes sobre os crimes cometidos pela ditadura militar: “O que acontecia nas prisões era uma barbaridade. O Brasil tem que conhecer os fatos. Ninguém quer fazer com os torturadores o que eles fizeram conosco. Mas é preciso escrever essa história, esclarecer a verdade.”

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