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Filhos de perseguidos políticos relatam roubo da infância

Roldão Arruda

06 de maio de 2013 | 23h48

Quais foram os impactos, os traumas, as marcas deixadas pela ditadura militar nos filhos de ex-presos políticos, de torturados, mortos e desaparecidos? A análise dessa questão é um dos principais objetivos do seminário Verdade e Infância Roubada, iniciado ontem em São Paulo.

Organizado pela Comissão Estadual da Verdade, o evento prossegue até sexta-feira. Serão quase cinquenta depoimentos de pessoas que eram crianças ou adolescentes quando a brutalidade do regime se abateu sobre seus parentes.

A série de depoimentos foi aberta por Cecília Capistrano, de 39 anos. Ela é neta de David Capistrano da Costa, dirigente do PCB desaparecido desde 1974, e filha de Maria Cristina Capistrano, militante do PC do B, presa e torturada em 1972.

Nascida em 1975, pouco depois desses dois fatos trágicos, Cecília conviveu desde a infância com as incessantes buscas da avó por informações sobre o marido desaparecido e o drama pessoal da mãe, que nunca falou abertamente sobre as torturas e sevícias a que foi submetida durante o período de um mês, na sede do DOI-Codi do Rio.

A mãe dela tinha 22 anos quando militares a sequestraram em sua casa, onde estava cuidando do filho de quatro anos. “Ela era mocinha, uma gatinha”, assinalou a filha. “Imagino o que passou. Nunca me contou tudo. Sempre falou aos pouquinhos. Acho que não queria sofrer de novo.”

Cecília chorou durante quase todo o depoimento. “O que a gente sofre é uma coisa invisível. É uma marca que passa de geração a geração”, afirmou, numa tentativa de definir o drama da infância dela e de outros filhos de perseguidos políticos. “Em casa era uma dor, uma dor, uma dor que a gente não sabia o que era.”

Rosana Momente, filha de Orlando Momente, militante do PC do B desaparecido na Guerrilha do Araguaia, em 1973, disse: “Cresci mudando de um lugar para o outro, sem nenhuma segurança. Você já conhece a solidão e sabe o que é depressão desde a infância.”

Ela contou que só soube da morte do pai quase cinco anos após o ocorrido: “Diziam que ele estava viajando, trabalhando. Eu só soube o que aconteceu quando tinha 15 anos.”

Paulo Fonteles Filho, outro convidado para depor, contou que sua mãe, a militante de esquerda Hecilda Veiga, já estava grávida quando foi presa em 1971, em Brasília. “Ela foi torturada, apesar de grávida de cinco meses. Diziam para ela: ‘Filho dessa raça não deve nascer’. Eu nasci na prisão.”

Em seu depoimento, Clóvis Petit contou que perdeu três de seus irmãos na Guerrilha do Araguaia. Ele tinha 14 anos quando Lúcio, o mais velho, despediu-se dele, na rodoviária de Bauru, no interior de São Paulo: “Ele me disse: ‘Fica aí, cuidando da mãe, que um dia eu volto para te buscar’. Eu nunca mais o vi.”

A sessão de ontem também teve a presença de dois filhos do sindicalista e perseguido político José Ibrahim, que morreu na semana passada.

Todos os depoentes criticaram a interpretação, dada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), de que a Lei da Anistia teria beneficiado também os agentes de Estado envolvidos com violações de direitos humanos. “Não queremos revanche, vingança, mas justiça”, disse Cecília Capistrano.

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