Ativistas invadem vila e expõem acusado de tortura aos vizinhos
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Ativistas invadem vila e expõem acusado de tortura aos vizinhos

Roldão Arruda

01 de abril de 2014 | 13h07

A tranquilidade da pequena vila de sobrados no n.º 174 da Rua Campante, na Vila Independência, zona sul de São Paulo, foi subitamente quebrada às 6h15 de hoje. Aos gritos e rufando tambores, um grupo de manifestantes do Levante Popular da Juventude ocupou a única rua da vila para denunciar publicamente e pedir a prisão do morador da casa n.º 1, o delegado aposentado Aparecido Laertes Calandra. No portão da sua garagem, os jovens picharam: “Calandra, assassino”. No piso azulejado e na parede lateral: “Torturador”.

Calandra é policial civil. Nos anos da ditadura militar atuou durante quase dez anos no Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operação de Defesa Interna (DOI-CODI), de São Paulo, sob ordens de militares do 2.º Exército. De acordo com relatos de ex-presos políticos, ali funcionou um dos piores centros de tortura do País e o Capitão Ubirajara, o codinome adotado pelo delegado, era um dos torturadores mais temidos. O deputado e ex-preso Nilmário Miranda (PT-MG) disse certa vez a seu respeito: “Todo mundo tinha horror de ser interrogado por ele.”

O objetivo do Levante Popular, com essa e outras ações semelhantes que estão sendo replicadas pelo País, os chamados escrachos, é expor agentes que atuaram nos serviços de repressão da ditadura aos vizinhos e pedir a sua punição. “Os torturadores não podem ser esquecidos jamais. Eles devem ser punidos. Por isso queremos a revogação da Lei da Anistia”, disse Luiza Troccoli, integrante do movimento.

A casa de Calandra fica no fim da vila, na parte mais interna. Para chegar até ela os manifestantes tiveram que quebrar o portão de entrada, o que provocou críticas dos outros moradores e telefonemas à Polícia Militar. Duas viaturas apareceram depois que a manifestação já havia terminado. 

Além da casa do delegado, foram pichados os muros da entrada da vila e as paredes de uma fábrica no outro lado da rua. “Aqui mora um torturador”, “ditadura nunca mais” e “punição aos torturadores” foram algumas das palavras de ordem gravadas nos muros. Também foram distribuídos panfletos com acusações ao policial.

Calandra não foi visto. Segundo uma vizinha, estaria viajando.

Um dos mais antigos moradores da vila disse, após pedir para não ser identificado, que o ex-agente do DOI-CODI tem um comportamento reservado e raramente cumprimenta alguém da vizinhança. Informou que sai diariamente pela manhã e volta à tarde. O morador disse ainda que já viu reportagens sobre o delegado na TV e que achou justa a manifestação, apesar de discordar dos métodos.

Outro vizinho recolheu uma lata de spray jogada no lixo pelos manifestantes. Usando um saco plástico como luva, disse que poderia conter digitais e ser usada no caso de algum inquérito policial. O mesmo vizinho, que não quis falar com o repórter, recolheu e dobrou a faixa deixada pelos manifestantes no portão da garagem da casa n.º 1, na qual se lia: “Viemos libertar nossa história. Memória, verdade e justiça!”

Em depoimento à Comissão Nacional da Verdade, em dezembro, Calandra negou todas as acusações feitas a ele. Disse que atuou como um burocrata no DOI-CODI e que não participava diretamente dos interrogatórios. “Nunca violei os direitos humanos, nunca torturei”, afirmou.

EM BELO HORIZONTE, MANIFESTAÇÃO CONTRA MILITAR

Quase no mesmo horário em que ocorria a manifestação em São Paulo, outro grupo do Levante Popular se reuniu na porta da residência do coronel aposentado Pedro Ivo dos Santos Vasconcelos, no bairro Santa Lúcia, em Belo Horizonte.

O militar atuou na polícia política do Estado (DOPS) e o seu nome é citado em relatórios de ex-presos sobre torturas e torturadores. Segundo os organizadores do ato, ele aparece 17 vezes no livro Brasil Nunca Mais – um dos primeiros e mais completos relatórios sobre violações de direitos humanos nas prisões no período da ditadura.

Também ocorreram manifestações no Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Distrito Federal.

 @Roarruda