Eleitor religioso desconfia da fé exagerada do candidato
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Eleitor religioso desconfia da fé exagerada do candidato

Roldão Arruda

03 de julho de 2012 | 13h34

A eleição presidencial de 2010 demonstrou de forma bem acabada a força dos grupos religiosos conservadores no processo político. É quase certo que eles empurraram a eleição para o segundo turno, com a questão do aborto, como demonstrou José Roberto Toledo numa das análises que fez sobre aquele período.

Todo político que pleiteia algum cargo executivo sabe hoje que não é aconselhável ignorar tal força. A preocupação dos candidatos à Prefeitura de São Paulo em se aproximar de líderes religiosos deixa o fato evidente. Alguns estudos indicam, porém, que não se deve exagerar. Excessos na desmonstração de fé mais atrapalham que ajudam.

Dias atrás, num encontro de feministas, em São Paulo, elas conheceram os resultados de uma pesquisa qualitativa realizada no início do ano, para verificar se o debate sobre aborto teria peso nas eleições municipais. Em linhas gerais, ficaram sabendo o seguinte: 1) a questão pesa, sim, no debate para prefeito; 2) qualquer candidato que defender o aborto perde voto; 3) o candidato que se declarar contrário, ressalvando, porém, seus respeito às normas legais,  que autorizam o aborto em caso de estupro, risco de vida para a mãe e anencefalia, tende a ganhar votos; 4) aquele que se manifestar contra toda forma de aborto, até as autorizadas pelas leis, não perde nem ganha. Fica parado.

Esses resultados remetem diretamente a um longo e provocativo artigo publicado pelo sociólogo Flávio Pierucci na revista   Novos Estudos, do Cebrap, em março de 2011.  Professor da USP e especialista em questões envolvendo voto e religião, ele observou que, de fato, o voto religioso empurrou a eleição presidencial de 2010 para o segundo turno, prejudicando Dilma Rousseff (PT). Logo em seguida, porém, se transformou num estorvo para quem apostou nele.

Segundo Pierucci, verificou-se naquele pleito o chamado efeito fariseu, termo usado na sociologia política norte-americana desde 2006. Foi inventado por dois pesquisadores de disputas eleitorais, Larry Powell e Eduardo Neiva, ao analisarem o fracasso do republicano Roy Moore, candidato ao governo do Alabama. Constataram que, ao depositar todo o peso de sua campanha no apelo religioso, ele acabou exagerando. Pecou por excesso, apresentando-se como alguém extremamente religioso e justiceiro.

O eleitor conservador, de acordo com essa teoria, percebe quando  alguém ultrapassa o limite do que é convencionalmente admissível e se afasta. O termo fariseu vem da parábola com a qual Jesus tipificou dois estilos de ser religioso, o fariseu, exagerado e orgulhoso de suas práticas, e o publicano, humilde e cabisbaixo.

Na avaliação de Pierucci, a campanha de José Serra (PSDB) também teria exagerado na apresentação dele como defensor de valores cristãos, na luta contra a ex-guerrilheira petista. Os assessores de campanha demoraram a perceber isso. E, em outubro, quando seus opositores decidiram atacá-lo utilizando a mesma arma, acusações relacionadas ao tema do aborto, ele estava numa posição excessivamente vulnerável, segundo o sociológo. E deu no que deu. 

Duas observações finais: 1)  A organização que fez a pesquisa apresentada às feministas não autorizou a divulgação de seu nome e de quem a solicitou. Também pediu sigilo em relação aos números, permitindo divulgar somente a tendência de comportamento do eleitor. 2) Antonio Flávio Pierucci morreu no dia 8 de junho, aos 67 anos, vítima de infarto. Além de notável pesquisador, durante anos foi para mim uma excelente fonte de consultas para reportagens sobre política e religião.

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