“Ele deu uma injeção para secar meu seio”, relata ex-presa
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“Ele deu uma injeção para secar meu seio”, relata ex-presa

Roldão Arruda

28 de maio de 2013 | 20h13

Na onda de relatos de torturas e outros crimes cometidos pela ditadura militar que se verifica no País, estimulada pela Comissão Nacional da Verdade, chama a atenção a coragem das mulheres. Em audiências públicas, relatos a jornalistas, livros, elas estão expondo alguns de seus dramas mais íntimos e difíceis de serem abordados, como os abusos sexuais.

Pelos relatos, os torturadores não poupavam nem seus filhos, nascidos ou ainda no ventre.

 Os depoimentos da historiadora Dulce Pandolfi e da cineasta Lúcia Murat, que emocionaram os integrantes da Comissão Estadual da Verdade nesta terça-feira, 28, no Rio, são mais uma demonstração desse momento da vida brasileira. Em São Paulo, a Comissão Estadual Rubens Paiva já recolheu relatos semelhantes – e não menos dramáticos – de outras mulheres submetidas a sevícias por agentes do Estado.

Os relatos se multiplicam por todo o País e provocam confrontos dolorosos. Um deles ocorreu na semana passada, no Rio, durante o seminário Verdades que a Ditadura Escondeu, no curso de comunicação da Pontifícia Universidade Católica do Rio.

Ao final das exposições dos convidados, quando foi aberto o debate, uma das organizadoras do evento, a ex-presa política e jornalista Suely Caldas, revelou que, na prisão, o médico encarregado de acompanhar as torturas aplicou-lhe uma injeção destinada a evitar que produzisse leite para amamentar o filho recém nascido. 

O vídeo com a reportagem sobre o seminário e o breve depoimento de Suely, que é colunista do Estadão, pode ser visto no portal da PUC-RJ.

Suely decidiu falar logo após ouvir a manifestação de Maria Helena Gomes de Souza, viúva do médico Amílcar Lobo, que trabalhou para o DOI-Codi do Rio. Presente ao seminário, ela queria defender a memória do marido, que foi denunciado por sua atuação num dos principais centros de tortura do País na ditadura – a chamada Casa da Morte, que funcionava em Petrópolis, na região serrana do Rio.

Em 1971, Amílcar presenciou, entre outras brutalidades ali ocorridas, a agonia do deputado Rubens Paiva, que até hoje figura na lista dos desaparecidos políticos.

Após mencionar que o marido era um médico recém-formado, Maria Helena disse: “Pai de três filhos, entendo que foi omisso, mas não aceito carregar a culpa de ele ter sido o único torturador desse país.”

Suely ouviu até o fim e também pediu a palavra. Dirigindo-se à viúva do médico, disse: “Eu estava na Polícia do Exército e fui atendida pelo Amilcar Lobo. Eu tinha acabado de ter filho quando fui presa e estava amamentando. Meu seio estava cheio de leite. Ele foi chamado para me atender e me deu uma injeção para secar o meu seio, para eu não amamentar meu bebê, ao meu lado. Essa foi a participação do Amílcar Lobo que eu vi, da qual fui testemunha.”

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