Declínio do PT não favorece em nada o PSDB
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Declínio do PT não favorece em nada o PSDB

Roldão Arruda

23 de julho de 2013 | 22h09

O PT atravessa uma das piores crises de sua história. Desde o início das grandes manifestações de rua, em junho, a perda de apoio ao partido e ao governo da presidente Dilma Rousseff parece uma sangria desatada. Isso todo mundo já sabe. O fato curioso – e ainda pouco destacado dessa história – é que nada disso favorece diretamente seu maior inimigo, o PSDB.

Nas pesquisas sobre intenção de voto, os eleitores que estão deixando de declarar apoio a candidatos petistas não migram para as bandas tucanas. O que aumenta é o número de brancos, nulos e indefinidos (na última pesquisa Ibope/Estadão esse contingente quase duplicou).

Na avaliação do cientista político Ricardo Antunes, da Unicamp, a rebelião das ruas não foi direcionada a um partido específico, mas a todos que simbolizam o atual estado de coisas. “Foi um tsunami em relação aos partidos da ordem”, diz ele. Até agora, a única personalidade política que ganhou com a crise foi a ex-senadora Marina Silva, que ainda não tem partido.

Antunes observa que a queda livre nos índices de aprovação do governo da presidente Dilma nas pesquisas de opinião não resultou em qualquer crescimento de Aécio Neves, provável candidato do PSDB nas eleições de 2014. Em algumas pesquisas, o ex-governador mineiro, que tenta catalisar a oposição, até perdeu apoio.

“O PSDB está sem rumo”, diz o analista. “A situação de seu principal nome, o José Serra, permanece indefinida. O Aécio tem dificuldade para decolar porque não é um nome nacional. Mesmo que se acredite que será empurrado por votos de São Paulo e Minas, dois colégios eleitorais expressivos, o Brasil não se resume a isso.”

A candidatura do PSDB também é dificultada, segundo Antunes, porque o partido não tem nenhuma marca expressiva na área social. “É um partido que transpira insensibilidade social”, afirma.

Entre os eleitores das áreas mais pobres e dependentes de programas sociais, como o Bolsa Família, a marca social é decisiva: “Quando esse eleitor analisa as alternativas que lhe oferecem, não pensa duas vezes entre ficar com Dilma e pular para Aécio Neves, do PSDB. Sabe que o risco de sair perdendo é muito maior.”

Observando o lado petista, o cientista político observa que os entusiastas da volta do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2014 podem se enganar. “Os setores que querem o Lula sabem que ele foi o menos chamuscado pela crise. E foi mesmo. O tamanho desse chamuscada, porém, ainda não foi devidamente avaliado. Sabe-se apenas que foi grande”, afirma. “É bom observar como o Lula ficou caladinho quando os protestos começaram e a maneira cautelosa como voltou à cena. Quero ver como ficará o apoio a ele quando, nos debates, ficar demonstrado quem quem trouxe a Copa das Confederações e a Copa do Mundo para o Brasil foi ele.”

Para finalizar, é bom lembrar que esse cenário é conjuntural e, muito provavelmente, passageiro. Antunes assinala que manifestações similares ocorridas em outros países não resultaram sempre em epifanias políticas.

“A revolta dos indignados na Espanha foi um exemplo disso: na hora da eleição continuou a velha alternância entre os partidos de esquerda, centro e os mais conservadores”, diz. “Aconteceu a mesma coisa na França e na Inglaterra. Ainda existe um vácuo entre as rebeliões de rua e a expressão delas na política. Ainda não se sabe como fazer a mediação entre a rua e o poder.”

Ainda segundo Antunes as ruas estão exigindo uma mudança radical no modo de fazer política, um modelo pelo qual as atuais democracias ainda não passaram e que os partidos não conseguem alcançar. “São partidos oligarquizados, profundamente controlados por grupos que não têm compromissos com mudanças na atual forma de fazer política.”

(Para saber mais como Antunes analisa o profundo efeito da crise sobre o PT, leia a entrevista dele ao Estado. Clique aqui.)

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