CUT perdeu força, mas ainda influi na eleição
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CUT perdeu força, mas ainda influi na eleição

Centrais perderam capacidade de mobilização, mas continuaram crescendo do ponto de vista organizatório e institucional. Peso eleitoral não deve ser desprezado, dizem especialistas

Roldão Arruda

04 de agosto de 2014 | 13h28

Os 630 delegados presentes à plenária da Central Única dos Trabalhadores (CUT) aprovaram na semana passada, em votação simbólica, apoio à candidatura da presidente Dilma Rousseff (PT) à reeleição. Eles tomaram a decisão logo após um discurso da candidata. quando prometeu manter a política de valorização dos salários e não flexibilizar leis trabalhistas.

Qual o efeito que uma decisão como essa tem no processo eleitoral? É apenas simbólico ou tende a carrear votos de maneira significativa para o candidato escolhido?

Na opinião de dois estudiosos do sindicalismo, esse tipo de apoio foi mais decisivo no passado, especialmente na década de 1980. Os dois concordam que CUT perdeu forças de lá para cá, mas ainda continua influente no cenário eleitoral.

“Se não fosse importante, Dilma não teria ido ao encontro da CUT”, diz Ricardo Antunes, professor titular de sociologia do trabalho na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e autor do livro Os Sentidos do Trabalho. “Embora com menos capacidade de mobilização do que no passado, a força burocrática da central ainda é muito grande”, confirma Leôncio Martins Rodrigues Netto, professor aposentado do departamento de ciência política da Unicamp e autor de Destino do Sindicalismo.

Rodrigues Netto refere-se ao gigantismo da CUT, a maior central sindical do País e a quinta do mundo, com 3.806 entidades filiadas. “Isso significa dinheiro e emprego para milhares de trabalhadores”, diz ele. “Passa desapercebido para muita gente, mas o dirigente sindical tem funções equivalentes à de um empregador, com muita gente mobilizada ao seu redor.”

A seguir algumas das observações dos dois estudiosos sobre o assunto.

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RICARDO ANTUNES

IMPACTO ELEITORAL. Não há dúvida sobre a influência eleitoral da CUT, que tem a maior amplitude entre todas as centrais. Não é uma influência medida diretamente em votos, como acontece em relação às famílias beneficiadas pelo Bolsa Família, mas seu valor simbólico é muito grande em relação a trabalhadores e trabalhadoras sindicalmente organizados. O efeito é mais político do que uma quantificação eleitoral. Ele é tão significativo que nenhum candidato desprezou ou vai desprezar esse apoio.

DILMA. Tenho duas observações sobre o fato de a presidente Dilma Rousseff entrar na campanha ouvindo a CUT e outras centrais sindicais. A primeira é que essa atitude sinaliza que não está ouvindo só os banqueiros e empresários. A segunda: ela confirma uma mudança de posição. É bom lembrar que até junho do ano passado Dilma tratou com desprezo a CUT, o MST e representantes de outros movimentos populares que tentavam agendar audiências com ela. De repente, após o vendaval das manifestações de junho, a agenda do Planalto começou a andar.

MELHOR FASE. A CUT já foi mais influente. Para comparar, basta lembrar o papel que a central teve nas conquistas do processo da Assembleia Constituinte e no movimento grevista na década de 1980. Não houve nenhuma greve importante no País sem a participação da central. Era a central que tinha mais densidade sindical, política e, consequentemente eleitoral.

A QUEDA. A CUT mudou com o terremoto, o tsunami que atingiu o Brasil nos anos 90 e que eu já chamei de desertificação liberal. Foi o período de privatizações exacerbadas e de desregulamentação do trabalho, que atingiram profundamente a vida sindical. Mais tarde, em 2002, a chegada do PT ao poder, com o apoio da central, também não ajudou. No poder, o PT enfraqueceu a CUT em vez de fortalecê-la.

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LEONCIO MARTINS RODRIGUES NETTO

IMPACTO ELEITORAL. O apoio da CUT não causa prejuízo. Não tira votos. O difícil é saber o quanto traz de vantagem. Um fato a observar nesse cenário é que, embora tenham perdido bastante de sua capacidade de mobilização, as centrais mantiveram, provavelmente até ampliaram, a sua força burocrática. Isso decorreu da decisão do presidente Lula de destinar uma parcela maior do imposto sindical para as centrais. Como essa distribuição é proporcional ao número de entidades filiadas, a CUT tem um poder maior, tanto do ponto de vista organizatório quanto institucional.

ÉPOCA DE OURO. A força política das centrais diminuiu muito. Elas tiveram sua época de ouro num momento excepcional do País, que combinou abertura política, significando maiores possibilidades de participação dos trabalhadores, com uma situação econômica boa. A concentração de uma nova classe operária concentrada em alguns poucos lugares, especialmente a região do ABC Paulista, também facilitou muito a capacidade de mobilização. Na década de 1980 a CUT ajudou o PT a eleger muita gente.

A QUEDA. As centrais sindicais foram domesticas pelo governo Lula. A CUT, por causa de suas alianças com o governo, evita mobilizações, greves. Isso tem reflexos políticos e eleitorais. De maneira geral, o movimento sindical perdeu muito de sua capacidade de arregimentação. As manifestações que vimos a partir de junho de 2013 eram manifestações policlassistas – reuniam gente de muitos setores sociais, sem nenhuma participação dos sindicatos. Eles não tinha nada a ver com o peixe.

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