As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Coronel critica decisão de tribunal federal: ‘Lamarca é desertor’

Em entrevista ao blog, coronel reformado Marco Balbi afirma que Brasil não viveu sob ditadura e critica a decisão da Justiça que garantiu o direito a promoção do capitão Carlos Lamarca

Roldão Arruda

22 de outubro de 2014 | 19h52

A notícia publicada neste blog sobre a decisão do Tribunal Regional Federal da 3.ª Região que reconheceu o direito a promoção do capitão Carlos Lamarca, provocou polêmica entre os leitores. Uma parte dela aparece nos comentários na página do post. De um total de 23 manifestações, 17 foram contrárias à decisão judicial, 5 favoráveis e uma neutra. Entre os que foram contrários, 5 associaram a decisão do Tribunal a algum tipo de influência do Executivo. Um deles falou em “bolivarianismo”.

Um outro leitor, o coronel reformado Marco Antonio Esteves Balbi, mandou um comentário mais longo sobre o post, com o título Mentiras, Factóides e Aberrações em Matéria sobre Lamarca. Ele criticou a forma como o blog deu a notícia e a decisão da Justiça.

Segundo o coronel, que tem 66 anos e é sócio do Clube Militar, no Rio, o que deve ser destacado é que Lamarca foi e continua sendo um desertor. Ele disse que o militar desertou para se juntar a grupos de esquerda que pretendiam implantar uma “ditadura do proletariado no Brasil”. O coronel também contestou o uso da expressão “ditadura” pelo blog.

Liguei para a casa do coronel. Ele atendeu e conversou comigo. A seguir, os principais trechos da conversa.

Coronel, o senhor disse que não concorda com a decisão da Justiça Federal. Pode explicar o motivo?

Essa decisão me aparece uma aberração, na medida em que um militar que comete o crime grave de deserção é punido severamente em todos os países do mundo. Isso ocorre em todas as forças armadas de qualquer país do mundo. É preciso considerar o alcance que essa decisão vai ter, principalmente porque quem vai pagar somos todos nós, os contribuintes brasileiros, que já arcam com outras indenizações concedidas a pessoas que,  em determinada época, particularmente durante a guerra interna do regime de exceção, pegaram em armas para implantar uma ditadura do proletariado no nosso País.

Ao contestar a informação publicada…

Sim estou contestando a informação, não a decisão da Justiça, porque não tenho capacidade para isso. Só espero que haja possibilidade ainda de se recorrer.

Pelo que sei, é possível recorrer da decisão (a Advocacia Geral da União pode fazer isso).

Não sei se quem deve e tem direito de fazer isso vai fazer, mas eu espero que sim.

O senhor contestou o uso da expressão ditadura.

O Brasil não viveu sob uma ditadura. Eu defino aquele período, que vai de 1964 a 1985, utilizando as palavras do ilustre jurista doutor Ives Gandra Martins, que o define como regime de exceção. Além dele, historiadores, como os professores Marco Antonio Villa e Denis Lerrer Ronsefield, já estabeleceram que aquele período tem e deve ser subdividido pelas várias nuances e fases pelas quais passou. Quando contesto o termo ditadura estou me baseando em figuras como um jurista, um historiador e um professor.

E quanto à série de livros sobre o período escrita pelo jornalista Elio Gaspari, que utiliza o termo ditadura?

Eu não li e não gostei. Meus livros de cabeceira são Orvil, Ideais Traídos, A Verdade Sufocada e A Grande Mentira, que é um excelente livro escrito pelo general Agnaldo Del Nero Augusto. São os meus livros de consulta para essa fase.

As informações que foram usadas no blog sobre aquele período e que o senhor contestou foram retiradas em parte do livro Direito à Memória e à Verdade, da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos…

É um documento absolutamente parcial.

Naquele documento, quando se afirma que Lamarca foi executado, é porque estava sem condições de reagir na ocasião em que foi cercado e morto. Ele podia ter sido preso e julgado. Mas o Exército preferiu a execução. O jurista Miguel Reale Júnior integrava a Comissão Especial quando ela produziu o documento.

Não concordo. Eram dois contra dois naquele momento. Eram Lamarca e seu companheiro Zequinha contra os dois militares que os cercaram. Como pode ter sido execução? Um dos que participaram da ação ainda está vivo. Basta procurá-lo para saber, se ele quiser contar o que viu. Não se pode considerar que duas pessoas, num duelo contra outras duas, tenham feito uma execução. O que eu quero falar é o seguinte: podem fazer a revisão que quiserem, mas o Lamarca continua sendo um desertor. Está na legislação: o camarada que foge do Exército é um desertor. Vocês escreveram que ele abandonou o Exército. Esse termo é um absurdo. É uma coisa de quem não conhece nada da carreira, do estamento militar, da forma como os militares agem, do seu espírito de corpo. Ninguém abandona o emprego.

O senhor também lembrou que ele levou armas quando saiu.

Levou, não: ele roubou uma Kombi cheia de fuzis. Ele fugiu em 1969 e eu cheguei a Jundiaí, para servir como aspirante, em 1970. Acompanhei todo o desenrolar da Operação Registro, estive lá, então eu sinto uma indignação muito grande com os termos que estão colocando aí.

O senhor participou diretamente da operação?

Não. Mas estava na área e acompanhei meus companheiros que estiveram lá. Foi um reboliço geral na área quando o Lamarca roubou os fuzis.

Poderia falar um pouco mais sobre a ideia de ‘guerra interna’?

O livro A Grande Mentira, do general Del Nero, traça exatamente a história desse período, particularmente essa tentativa de tomada do poder. Ela tem que ser destacada para quem estuda seriamente esse período do contexto, porque de 1968 a 1974 os partidos comunistas partiram para a luta armada. Vários de seus membros criaram diversas organizações subversivas para a luta armada, para implantar uma ditadura do proletariado no Brasil, como já disse, seja no modelo cubano, chinês, russo, albanês, o que fosse. Esse período de 1968 a 1974, dentro do grande contexto de 1964 a 1985, é diferente, é especial. Parece que as pessoas não se debruçam sobre isso para entender. Sugiro que você leia A Grande Mentira, do general Del Nero, porque aborda isso de forma espetacular.

Em sua carta o senhor ainda contestou a informação de que Lamarca tinha um “histórico militar brilhante”.

É conclusão retirada de alguma citação elogiosa transcrita nas folhas de alterações.

Sim. Há vários elogios a ele nessas folhas.

Todos os que com Lamarca conviveram na carreira das armas, sejam chefes, pares ou subordinados, afirmam que ele não se distinguia por nenhum atributo excepcional. Era um oficial normal, mediano no cumprimento de suas atribuições, como o são quase todos, fora aqueles excepcionais. Não, Lamarca não era brilhante.
___________________________________________________________________________
N o t a s:
1. O capitão Carlos Lamarca (1937-1971) desertou do Exército em 1969. Foi um dos líderes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organização de esquerda que defendia a resistência armada. Entre os diferentes tipos de ação que liderou, de assaltos a bancos a sequestros, aparece a tentativa de organização de um foco de guerrilha na região do Vale do Ribeira, uma das mais pobres do Estado de São Paulo. É a esse episódio que o coronel se refere na entrevista. Lamarca foi morto no interior da Bahia.

2. O jornalista Elio Gaspari escreveu uma série de quatro livros sobre o período em que os militares estiveram no poder, abordando as suas diferentes fases. Os títulos são A Ditadura Envergonhada, A Ditadura Escancarada, A Ditadura Derrotada, e A Ditadura Encurralada.

3. O livro Orvil, citado pelo coronel, foi escrito por uma equipe de colaboradores do Centro de Informações do Exército, no governo do presidente José Sarney, quando o general Leônidas Pires Gonçalves ocupava o posto de ministro do Exército. É a versão dos militares sobre o período conhecido como “anos de chumbo”, uma espécie de resposta que resolveram dar ao Brasil Nunca Mais, lançado naquele período, com relatos de violações de direitos humanos a partir de documentos obtidos na Justiça Militar. Orvil é livro escrito ao contrário.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.