Ao produzir aplicativo sobre a ditadura, estudantes valorizam a democracia
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Ao produzir aplicativo sobre a ditadura, estudantes valorizam a democracia

Roldão Arruda

24 de novembro de 2013 | 16h37

Os estudantes do 9.º ano do Colégio I. L. Peretz  lançaram na sexta-feira, 22, em São Paulo, um aplicativo sobre o período da ditadura militar no Brasil. O lançamento ocorreu no museu que abriga o Memorial da Resistência, no Bairro da Luz, e teve o apoio do Instituto Vladimir Herzog.

Entre as personalidades convidadas para o evento encontrava-se Margarida Genevois, uma referência no País na área de defesa dos direitos humanos. Ela presidiu a a Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo no início da década de 1970, quando recrudescia no País a violência contra dissidentes políticos e ditaduras se espalhavam por países vizinhos, como o Chile e a Argentina.

Com 90 anos, Margarida disse que fez questão de participar da cerimônia de lançamento do trabalho escolar e explicou: “Vocês têm uma responsabilidade enorme de trabalhar para uma sociedade mais justa e democrática. Parabéns pelo belíssimo trabalho de pesquisa e produção desse aplicativo”.

O entusiasmo da antiga colaboradora do cardeal Paulo Evaristo Arns está ligado sobretudo à idade dos pesquisadores e autores do aplicativo – na faixa de 14 anos.

Até recentemente, temas ligados às violações de direitos humanos e à resistência política nos anos da ditadura militar pareciam condenados a se restringir, cada vez mais, às antigas vítimas de perseguições, aos ex-presos políticos e familiares de mortos e desaparecidos. Esse cenário teve uma mudança expressiva em maio do ano passado, com a instalação da Comissão Nacional da Verdade.

Os trabalhos da Comissão provocaram pesquisas e debates sobre aquele período em quase todo o País. Diversas escolas estimularam os estudantes a pesquisar e entender o golpe militar que abateu a democracia em 1964 e a ditadura que veio a seguir.

O trabalho escolar do Peretz, com um grupo de 43 alunos, acabou se destacando por três razões: pelo entusiasmo dos alunos; pela forma multidisciplinar com que foi desenvolvido, abrangendo quatro matérias; e o seu resultado final, um aplicativo disponível na internet.

Ele contém, entre outras coisas, um pequeno jogo de perguntas e respostas, onde estudantes podem testar seu conhecimentos sobre o período pesquisado. Também abriga um glossário, informações sobre a forma que os artistas encontravam para denunciar a opressão, trechos de músicas e um roteiro de locais de memória.

Entre esses locais encontra-se o prédio do museu onde os estudantes foram homenageados por Margarida, diretores do Instituto Vladimir Herzog e do Memorial da Resistência. Ele abrigava a sede do antigo Departamento de Ordem Política e Social (Dops), que funcionou na ditadura como um dos mais temidos centros de tortura do País.

No trabalho de pesquisa, os estudantes puderam constatar que nem todas as feridas estão cicatrizadas e que ainda convivem no País diferentes versões sobre o período. Ao mesmo tempo que se comoveram com o drama dos desaparecidos políticos, cujas famílias procuram até hoje informações sobre o destino que tiveram, eles também ouviram declarações favoráveis à ditadura. Foram feitas por um militar, que encontraram durante uma visita à Praça dos Três Poderes, em Brasília.

Ao falar com seus parentes sobre a pesquisa, verificaram que poucos vivenciaram ou têm memória do período. O avô de um deles lembrou que o início da década de 1970, justamente o de maior repressão política, também foi marcado por um forte ciclo de desenvolvimento econômico. Para alguns historiadores, esse movimento da economia, conhecido como  Milagre Econômico, justificaria o apoio de setores da classe média à ditadura.

Essas e outras nuances, contadas pelos estudantes ao repórter, não aparecem no resultado final do trabalho escolar, cujo objetivo mais direto é propiciar uma apresentação do período de governo militar e o seu contexto histórico. De forma indireta, ele resulta sobretudo na valorização da democracia.

Segunda a coordenadora do projeto, professora Melanie Grun, trata-se de “lembrar para a frente”. Em outras palavras: “A memória é o elo entre passado, presente e futuro. Difundir informações sobre o período, por meio do aplicativo, é uma forma de agir pela defesa dos direitos humanos e da democracia, sempre.”

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Para quem quiser consultar o aplicativo: o endereço é  http://galeria.fabricadeaplicativos.com.br/ditadura_na_memoria1

E para quem quiser ver a entrevista que os estudantes deram à TV Estadão, apresentado o trabalho, o endereço é: http://tv.estadao.com.br/videos,ALUNOS-DO-9-ANO-CRIAM-APLICATIVO-SOBRE-A-MEMORIA-DA-DITADURA,218438,260,0.htm

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