Aniversário do golpe motiva protestos, debates, livros, exposições
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Aniversário do golpe motiva protestos, debates, livros, exposições

Roldão Arruda

21 de março de 2014 | 00h12

O aniversário de 50 anos do golpe de Estado que derrubou o presidente João Goulart, em 1.º de abril de 1964, está motivando manifestações por todo o País e até no exterior. São seminários, conferências, encontros, atos públicos, exposições, lançamentos de livros. De maneira geral, têm objetivos comuns: manifestar repúdio à quebra da ordem constitucional e ao terror que sobreveio; debater e esclarecer questões que envolvem o período; e manter as novas gerações informadas.

“Os jovens, não nascidos naqueles dias, devem saber o que aconteceu. É preciso informá-los, para que aqueles fatos nunca mais se repitam”, disse o advogado José Carlos Dias, durante um debate organizado pelo Instituto de Defesa do Direito de Defesa, na noite de quarta-feira (19), na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), em São Paulo.

O advogado, que faz parte da Comissão Nacional da Verdade e foi um ativo defensor de presos políticos nos tribunais militares do período ditatorial, falava sobre o O Direito de Defesa na Ditadura. O auditório, com cem lugares, estava lotado. A maioria dos presentes eram jovens estudantes de direito.

O Tuca, teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) também estava lotado na noite do dia anterior (18), durante uma sessão do Tribunal Tiradentes – organizada para julgar simbolicamente a Lei n.º 6.683, a Lei da Anistia, promulgada em 1979, ainda durante a ditadura. De maneira mais específica, o que acabou sendo julgado foi a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que, em 2010, confirmou a interpretação inicial da lei, segundo a qual também teriam sido beneficiados os agentes de Estado apontados como autores de violações de direitos humanos.

Ao final, o auditório, composto principalmente por jovens, aplaudiu a decisão do tribunal, lida pelo seu presidente, jornalista Juca Kfouri. Ela excluiu da anistia “todos os autores de crimes contra a humanidade, tais como homicídio, tortura, estupro, sequestro, desaparecimento forçado, ocultação e destruição de cadáveres de oponentes políticos”.

Ainda na terça-feira, no Auditório da Caixa Econômica, teve início um ciclo de palestras sobre Mulheres Aristas na Ditadura. Termina Hoje, com a palestrante Yara Screiber Dines, que falará sobre Nair Benedicto – Mulheres Fotógrafas e o Registro no Brasil do Regime Militar. 

A Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP) promove desde quarta-feira (19) um seminário dedicado a debater a ditadura e a onda autoritária que varreu a América Latina naquele período. Prossegue até o dia 24, com temas como Colapso do Populismo e Legados da Ditadura que Moldaram o Brasil Contemporâneo.

O Instituto Vladimir Herzog também organizou atividades para reavivar a memória dos anos da ditadura. Começam no dia 30, com um concerto da pianista americana Ursula Oppens, na Sala São Paulo. Ela interpretará as 36 variações de Frederic Rzewski para a canção de protesto chilena O Povo Unido Jamais será Vencido, composta por Sergio Ortega.

O Centro Sérgio Buarque de Holanda, da Fundação Perseu Abramo, lançou uma edição especial de sua revistas sobre história, memória e política. Entre outras coisas, apresenta uma série de documentos produzidos pelo Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo (Dops-SP) sobre o Partido dos Trabalhadores (PT).

Na terça-feira, 25, a a Comissão Nacional da Verdade realiza no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, audiência pública sobre a Casa da Morte, um dos principais centros clandestinos de tortura, morte e ocultação de cadáveres instalado que funcionou no País no período da ditadura. Mantido pelo Centro de Informações do Exército (CIE), funcionava na cidade de Petrópolis.

No dia 29, a Comissão Nacional da Verdade e a Comissão Estadual Rubens Paiva realizam, no Memorial da Resistência, em São Paulo, a audiência pública Ditadura e Homossexualidade no Brasil.

Entre os dias 26 de março e 13 de abril, o Ministério Público Federal (MPF), a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e a USP promovem a mostra 50 Anos do Golpe: O Regime Militar no Cinema Brasileiro. Serão exibidos 26 filmes, produzidos entre 1971 e 2013, seguidos de debates com diretores, atores, ex-presos políticos, historiadores, jornalistas, políticos e membros do MPF.

No dia 31 será realizado o ato público Ditadura Nunca Mais. Está programado para o pátio externo do 36.º Distrito Policial, na Rua Tutóia, que abrigou na década de 1970 a sede do DOI-Codi de São Paulo.

No mesmo dia, os alunos do Colégio Equipe, criado na ditadura por professores da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, recebem duas convidadas para palestras: a jornalista e educadora Elza Lobo, presa e torturada em 1969; e a psicanalista Maria Rita Kehl, integrante da Comissão Nacional da Verdade. 

Entre os seminários acadêmicos um dos mais ambiciosos será realizado nos Estados Unidos, na Brown University, entre os dias 9 e 12 de abril. Uma de suas principais características é que abarca dos anos da ditadura aos dias atuais, sob o título Brazil: From Dictatorship to Democracy (1964-2014). Serão analisadas, entre outras questões, as eleições deste ano ano e os programas sociais de transferência de renda.

Entre os vários livros que estão sendo lançados aparece 1964 – O Golpe que Derrubou um Presidente, Pôs Fim ao Regime Democrático e Instituiu a Ditadura no Brasil (Editora Civilização Brasileira). Na obra, os historiadores Jorge Ferreira e Ângela de Castro Gomes destacam a participação de grupos civis na quebra da ordem constitucional.

“Ângela e Jorge não têm dúvidas de que o “movimento” ocorrido em 1º de abril de 1964, que acabou com a experiência democrática iniciada no final de 1945, foi um golpe civil e militar”, diz, na apresentação do livro, a professora Marly Motta, da Fundação Getúlio Vargas (FGV). 

O apoio civil ao golpe também é um dos temas do historiador Carlos Fico em O Golpe de 1964, da Editora FGV. Ele afirma que vários grupos sociais que aprovaram a iniciativa no primeiro momento acabaram se arrependendo com o passar do tempo. Entre eles estavam a imprensa, a Igreja Católica e setores da classe média urbana.

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