A morte de Dorothy Stang, há dez anos, e a falta de água em SP
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A morte de Dorothy Stang, há dez anos, e a falta de água em SP

A missionária americana, assassinada há dez anos, no dia 12 de fevereiro de 2005, defendia a preservação da floresta amazônica

Roldão Arruda

12 Fevereiro 2015 | 21h20

A missionária Dorothy Stang foi assassinada há exatos dez anos – no dia 12 de fevereiro de 2005. Foi morta a bala por um pistoleiro, contratado por fazendeiros. Caiu no meio da mata, no município de Anapu, no Estado do Pará.

Três anos antes do crime, em 2002, a Câmara Municipal havia aprovado uma moção declarando a freira persona non grata na cidade. Os vereadores achavam intolerável a maneira como aquela senhora de 74 anos, voz mansa e sotaque carregado, defendia a exploração sustentável da floresta e a preservação do meio ambiente.

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Dorothy também era contrária às ocupações de grandes áreas de terras públicas por grileiros, defendendo que fossem retomadas pelo Estado e redistribuídas entre trabalhadores rurais.

A passagem de dez anos de sua morte foi pouco lembrada. A Agência Brasil enviou para a região, no sudoeste do Pará, o repórter Paulo Victor Chagas. Ele observou, entre outras coisas, que ainda persistem por ali tensões decorrentes de disputas pela terra.

Ao falar sobre o Projeto de Desenvolvimento Sustentável Esperança, pelo qual a freira americana lutava, observou: “Atualmente, o projeto abriga 261 famílias de pequenos agricultores que ainda pedem mais presença do Poder Público. Apesar de as condições de vida terem melhorado na última década, muitos dos trabalhadores rurais vivem um cenário de instabilidade gerado por longos processos na Justiça sobre a posse da terra e a pressão de madeireiros.”

Uma das pessoas ouvidas pelo repórter foi José Carlos Pereira, ex-presidente da associação dos comerciantes de Anapu – uma das entidades locais que promoveram manifestações contra a presença da freira na cidade e levaram a Câmara a votar pelo seu afastamento de lá.

“Foram feitos vários movimentos porque naquela época ficava todo mundo desesperado com o que podia acontecer. Madeireiro não vai serrar árvore, fazendeiro não pode ter terra”, disse Pereira, procurando justificar o que houve.

“Era a nossa intenção que ela deixasse os madeireiros, na época, e os fazendeiros, que eram ameaçados, viver em paz. A gente achava que com a saída dela, tanto o setor madeireiro quanto o setor pecuarista, ia ter sossego”, justificou.

Passados dez anos, o antigo presidente da associação admitiu que hoje não tomaria a mesma atitude. “Se hoje eu tivesse de fazer o que eu fiz, eu parava duas vezes para pensar. Até porque muita coisa mudou com a implantação do PDS”, disse ele ao repórter da Agência Brasil.

“A gente está vendo grandes exemplos lá em São Paulo, lá em Minas, faltando água até para beber. E se isso (a implantação do Projeto de Desenvolvimento Sustentável) não tivesse acontecido, para dar um freio, daqui 20, 30 anos, nós estaríamos passando pela mesma situação. Então, hoje, eu dou a mão à palmatória. Pelo menos em parte, ela tinha razão.”

À maneira dele, Pereira disse o que já tem sido afirmado por cientistas, segundo os quais a falta de água nos reservatórios da região Sudeste do País está relacionada à destruição das nossas florestas. O problema só irá se agravar se o processo predatório não for contido.

A irmã Dorothy sabia.

 

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