“A ditadura nunca se assumiu”, diz pesquisador
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“A ditadura nunca se assumiu”, diz pesquisador

Roldão Arruda

26 de março de 2014 | 00h20

Para o sociólogo Marcelo Ridenti, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Campinas, a ditadura brasileira nunca se assumiu como ditadura. “Sempre tentou se mostrar como uma reação contra a ofensiva dos comunistas, uma reação para salvar a democracia”, afirmou. “Como é que podiam fazer uma ditadura, se queriam a democracia? Não podiam se assumir no sentido explícito.”

As afirmações de Ridenti foram feitas na noite de terça-feira (25), durante uma das mesas do seminário O Golpe de 1964 e a Onda Autoritária na América Latina, na Universidade São Paulo (USP). Segundo o pesquisador, desde os primeiros momentos, com a derrubada do presidente João Goulart, a ditadura procurou se legitimar do ponto de vista institucional.

Ele citou como exemplo o fato de os golpistas terem reprimido imediatamente os movimentos populares e cassado os mandatos de quase quarenta parlamentares, ao mesmo tempo que mantinham em funcionamento os antigos partidos e o Congresso Nacional. “Dentro desses partidos, que haviam apoiado de maneira expressa ou veladamente o golpe, começou a se constituir aos poucos uma oposição institucional”, afirmou. Mais tarde, mesmo com o fechamento do Congresso e a reorganização partidária, foi mantido o espaço para uma oposição consentida, no MDB.

Ridenti iniciou sua exposição destacando que, ao longo da história, as grandes mudanças no Brasil tem sido controladas “pelo alto” e que os grupos dominantes sempre tiveram “um medo enorme das classes populares”. Em 1964 teria surgido a possibilidade de uma alternativa de mudança envolvendo setores da base da sociedade brasileira. Esse processo foi cortado pelo golpe e a imposição de um regime, que mais uma vez, teria promovido mudanças “pelo alto”.

“A ditadura modernizou o Brasil de um modo conservador, sem mudanças estruturais”, disse. “Mais uma vez o moderno se imbricou com o passado, mantendo sempre as enormes desigualdades sociais.”

Ao dar exemplos de como teria ocorrido esse processo de mudança autoritária, mencionou que não houve reforma agrária, como pretendiam os grupos que apoiavam Goulart, mas ocorreu a modernização do campo, com o estabelecimento do agronegócio e algumas concessões para o trabalhador rural  – como a aposentadoria e o Funrural.

Ele citou ainda que nos piores anos da repressão, entre 1968 e 1978, o número de sindicatos aumentou tanto na zona rural quanto urbana. “De 625 sindicatos rurais em 1968, o total chegou a 1669 em 1975”, afirmou. “Para levar adiante uma política assistencialista, o regime precisava dos sindicatos, para que funcionassem como uma correia de transmissão.”

Ao mesmo tempo que perseguia e dizimava a oposição que pregava a derrubada do regime, pela via armada ou não, a ditadura mantinha mecanismos de legitimação institucional, segundo Ridente. E dentro desses mecanismos surgiam oposições que tiveram importante papel na construção da democracia.

“Ao implementar seu projeto de Brasil grande, o regime desencadeou forças que não tinha condições de conter. Surgiram novas relações de trabalho, novas contradições”, afirmou.

O seminário na USP, promovido pelo Departamento de História, Escola de Artes e Ciências Humanas, com apoio da Universidade de Brown (Estados Unidos) e da Associação de Pesquisadores de História das Américas, prossegue até sexta-feira.

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