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Transporte político

Jennifer Gonzales

27 de março de 2010 | 15h00

Por Wilson Tosta

Passageiros depredaram um trem de subúrbio no Rio de Janeiro na sexta-feira, 26. Nenhuma novidade aí: o sistema de transportes públicos que serve aos cariocas vive uma crise prolongada, que já teve composição circulando sem maquinista, Metrô indo para a estação errada, vagões sem ar refrigerado nem luz, tumulto na estação de barcas da Praça 15.

É também muito ineficiente, transportando por ônibus mais de 80% dos passageiros, utilizando veículos que na verdade são caminhões adaptados, desconfortáveis e poluentes.

O novo é que, pelo ponto a que chegou, o problema tem tudo para se transformar em um dos assuntos centrais do debate eleitoral dos fluminenses para renovação do governo estadual em 2010. Uma discussão temperada pela perspectiva da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016, que vão expor o setor a uma demanda inédita de passageiros e à possibilidade de engarrafamento , de colapso – e, temem alguns cariocas, de vexame.

 Para os possíveis candidatos ao governo estadual, o tema será campo minado. O governador Sérgio Cabral Filho (PMDB) precisará explicar os problemas do sistema, que, no caso do Metrô, se agravaram depois do início da operação da Linha 1-A, um by pass para ligar diretamente as Linhas 1 e 2, feito pela concessionária, em troca de aumento no tempo de concessão, ocorrida no atual governo.

Mas seus prováveis adversários não estão em situação muito melhor. Fernando Gabeira (PV) terá apoio do PSDB, partido que privatizou Metrô, trens e barcas na gestão Marcello Alencar (1995-1998) – nesse processo, alguns especialistas localizam o agravamento das condições de transporte – e não poderá atacar a questão por aí. Anthony Garotinho (PR), ex-governador, também não tem discurso para o setor sem se arriscar a ser cobrado pelo que não fez.

 Outro fator potencialmente explosivo para os candidatos é que o empresariado de ônibus é em geral apontado como financiador de campanhas eleitorais, e com essa turma, nenhum político quer briga.

A suspeita nunca foi provada, mas é voz corrente nos meios políticos que o pagamento (claro, não oficial) de campanhas eleitorais no passado ajudou muita gente, tendo como resultado o absoluto atraso do Rio no transporte público.

Na região metropolitana fluminense, os vários modais não se falam, diferentemente do que ocorre em grandes cidades do mundo, nas quais trens, metrô, ônibus etc formam sistemas unificados. Uma proposta de unificação dos transportes gestada na UFRJ no início da década, que tiraria das ruas 1/4 dos ônibus, ficou no papel.

E o pior é que as perspectivas não são boas. Uma nota técnica da Gerência de Infraestrutura e Novos Investimento da Diretoria de Desenvolvimento Econômico da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), divulgada no mês passado, colocou em dúvida a solução da prefeitura do Rio para o transporte coletivo até as Olimpíadas, os BRTs, quatro corredores exclusivos para ônibus.

“Mantida a condição atual das infraestruturas de mobilidade, as perdas geradas pelos congestionamentos poderão chegar a R$ 34 bilhões em 2016 – o equivalente a um quarto do PIB carioca hoje”, diz o documento. O estudo afirma que em 2016 as vans transportarão, por hora, mais passageiros que os BRTs, e os ônibus terão 86% das viagens. O resultado será a ocorrência de engarrafamentos de até 154 quilômetros no ano olímpico.

Prefeitura e governo estadual, claro, odiaram o estudo. Mas o problema é real e deverá ocupar candidatos e partidos em 2010.