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Saramago, um comunista a favor da democracia

Jennifer Gonzales

18 de junho de 2010 | 17h31

Por Jair Stangler

Além de grande escritor, o português José Saramago, morto nesta sexta-feira, 18, também sempre assumiu que era um comunista convicto. Mas também sempre procurou deixar claro sua opção pela democracia em detrimento dos governos totalitários. Independente de apreciarmos ou não suas posições ideológicas, Saramago foi um homem de ideias que tomou partido nas principais questões de seu tempo.

Leia também: Saramago era conhecido por opiniões polêmicas e língua afiada

“Sou comunista e por isso sou tratado como inimigo da democracia. Pelo contrário, eu quero é salvar a democracia e para isso é preciso criticar esse simulacro de democracia em que vivemos”, afirmou em entrevista concedida em 2006 à revista francesa Le Nouvel Observateur.

Na mesma entrevista, Saramago esclarece que o comunismo “jamais existiu em nenhum país e em tempo algum. Mesmo na ex-União Soviética, o que havia não era nada senão um capitalismo de Estado”.

Para o escritor português, democracias do ocidente “são fachadas políticas do poder econômico”. “Foi o poder econômico que enfiou nas consciências que o mercado deve agir de mãos livres e, assim fazendo, levou à conclusão de que o pleno emprego é um obstáculo”, afirmou.

Foi por essa sua visão sobre a democracia em vigor nos principais países do mundo hoje que Saramago escreveu, em 2004, o livro “Ensaio sobre a lucidez”, uma autocitação que faz referência ao seu clássico “Ensaio sobre a cegueira”, de 1995.

Em ‘Ensaio sobre a cegueira’, um surto de cegueira atinge uma cidade indeterminada, e a partir daí o escritor constrói sua história, base para uma reflexão mais profunda sobre o homem, a ética e a moral. Já em ‘Ensaio sobre a lucidez’, os políticos são surpreendidos com mais de 70% de votos em branco em uma eleição, o que põe em xeque as instituições e todo o sistema democrático.

Seu livro foi entendido como uma defesa do voto em branco. O escritor negou. Mas entendia que esta é uma atitude política, diferente da abstenção.

Apesar de ser defensor da democracia, Saramago era amigo de Fidel Castro e se posicionou muitas vezes em favor do ditador cubano. Assinou em 2006 um manifesto apoiando a transferência do poder de Fidel, que renunciara, para Raúl Castro, seu irmão e atual presidente. Além disso, sempre defendeu o fim do embargo a Cuba. Em 2003, em episódio que culminou no fuzilamento de dissidentes cubanos, Saramago criticou o governo cubano.

Polêmicas

Muito em função de sua posição ideológica, Saramago se envolveu em diversas polêmicas.

Em 2003, em entrevista ao jornal O Globo, o escritor causou polêmica ao criticar a postura dos judeus na Palestina e declarar que “eles não aprenderam nada com o sofrimento dos seus pais e avós” no Holocausto. Pela declaração, foi chamado de ‘antissemita’ por lideranças judaicas.

Mas provavelmente sua principal adversária foi a Igreja Católica. A primeira grande polêmica com a instituição veio quando outra obra clássica, “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, que retrata o fundador do Cristianismo como um homem comum, altamente relutante em aceitar os desígnios divinos e em situações bastante humanas, como ao fazer sexo com Maria Madalena. 

Saramago parecia se comprazer em provocar a Igreja: “Sobre o livro sagrado, eu costumo dizer: lê a Bíblia e perde a fé!”. Em entrevista concedida ao Estado em 2009, Saramago declarou que ‘deus não existe fora da cabeça das pessoas’.  

Após o lançamento de seu último livro, ‘Caim’, em 2009, muitos católicos voltaram a criticar Saramago.

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