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Propaganda eleitoral na França: lições para o Brasil

Redação

18 Junho 2012 | 18h52

Gabriel Manzano, de O Estado de S.Paulo

A propaganda eleitoral pela TV, recém-terminada na França ­– que acaba de eleger um presidente e mais de 500 deputados –, tem algumas lições a dar ao Brasil, que está prestes a começar a sua, para escolher 5.554 prefeitos. O que os franceses deixam claro é que há, sim, vida inteligente – e bem mais republicana – fora das campanhas milionárias.

Uma visita a quatro ou cinco programas na reta final da semana passada – menos  de vinte minutos cada, todas as noites – revela diferenças que mereceriam uma séria ponderação de candidatos, marqueteiros, partidos e Justiça eleitoral do Brasil. E do Congresso, que não tira nunca a reforma política da gaveta.

A começar pelo formato: há por lá uma unidade visual do começo ao fim, com vinhetas da Justiça eleitoral se movimentando com as cores da bandeira francesa, apresentando e despedindo cada partido. Pode parecer bobagem, mas mostra que é a Justiça eleitoral que conduz o jogo, não os partidos.

Segundo: a distribuição do tempo de TV é muito mais equilibrada. Grandes siglas, como o Partido Socialista, do presidente François Hollande, e a UMP, de Nicholas Sarkozi, têm um pouco mais  de tempo, mas sem os abismos de diferença que se vê no Brasil, onde um candidato tem 20 segundos e outro se espalha por seis ou oito minutos comprados no balcão das coalizões. Partidinhos radicais levam dois minutos, por exemplo, contra três e meio dos grandões.

Terceiro: a marca dos programas é a economia, o recato, a ausência de produções hollywoodianas, celebridades e cenários grandiosos. No geral, os partidos franceses mostram um filmete normal, que inclui breves entrevistas de rua. O mesmo todas as noites. E quase sempre o candidato, ou o presidente da sigla, falando direto ao eleitor.

Quarto: a mensagem é tudo, o candidato é seu portador. O que se anuncia são princípios, prioridades. O debate é sobre ideias, não sobre quem se sentará no trono. Na campanha legislativa, o “eu” praticamente não existe. É o partido que conta, coisa que entre nós dependeria de uma reforma de usos e costumes políticos que todos aprovam e ninguém deixa fazer.

Quinto: Nem sombra, do começo ao fim, de promessas e obras – hospitais, escolas, estradas, creches. Benefícios para uma cidade resultam de um debate aberto e levá-los adiante é uma rotina administrativa. “Prometo 357 hospitais e 412 escolas”, “Criei as AMAs” ou “Foi Maluf que fez” são coisas impensáveis.

Sexto: a total e completa transparência do debate ideológico. Claro que a campanha, neste caso, reflete uma cultura nacional intensamente vivida, aberta, um debate que não se curva ao politicamente correto. Esquerda e direita batem no peito e dizem seus nomes. “Face à direita, a uma extrema direita que se levanta, vamos dar uma garantia à esquerda”, bradava a Frente de Esquerda de Jean-Luc Melanchon no programa da sexta-feira passada. “O PDC é um partido de direita, uma direita de convicção…”, respondia o Partido Democrata-Cristão.  “Não dê todos os poderes à esquerda… uma vitória da direita é possível”, advertia o Novo Centro. “É preciso dizer não aos gritos da rua”, diz a UMP de Sarkozy, desafiando passeatas de rebeldes. A batalha contra imigrantes é aberta, sem culpas. “Sou contra o direito de voto a estrangeiros”, diz uma eleitora de Sarkozy. ‘É preciso punir duramente os criminosos reincidentes”, alerta um locutor de outro partido.