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Perfil de revista mostra Jobim como político vaidoso e orgulhoso de relação com militares

Jennifer Gonzales

04 de agosto de 2011 | 21h38

Jair Stangler, do Estadão.com.br

Após quase quatro anos no Ministério da Defesa, Nelson Jobim deixou o governo nesta quinta-feira, 4. Uma série de declarações polêmicas nos últimos meses contribuíram para sua queda. A gota d’água foi a declaração dada à revista Piauí que chega às bancas na sexta-feira, 5, criticando o trabalho das ministras Gleisi Hoffman, da Casa Civil, e Ideli Salvatti, de Relações Institucionais.

O ministro comia uma salada e comentava a discussão sobre a liberação de documentos sigilosos do Estado, quando emitiu a declaração fatal: “É muita trapalhada, a Ideli é muito fraquinha e Gleisi nem sequer conhece Brasília.”

Isso, somado a outras declarações que vinham causando constrangimento no governo – insinuando a presença de ‘idiotas’ no governo e de que votou no tucano José Serra em 2010 -, acabou lhe custando o cargo.

No todo, o perfil apresenta um político vaidoso de suas realizações no ministério e bastante informado sobre as principais questões de sua pasta. Mostra ainda um ministro com orgulho de sua relação com os militares e com apreço pela hierarquia.

A entrada no governo

Na reportagem, Jobim conta como foi parar no governo. Segundo ele, resistiu bastante no início, pela vontade de sua esposa e também porque considerava já concluída sua contribuição na vida pública – ele havia sido deputado constituinte, ministro da Justiça de FHC, ministro do STF, presidente do TSE durante a eleição de Lula.

Quem primeiro o convidou foi o atual governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, então ministro da Justiça de Lula. “O Tarso me disse que o governo precisava de alguém para colocar ordem no negócio, e que eu tinha a cabeça organizada e autoridade”, lembra.

Jobim relata ainda que ouviu convites do então ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, de amigos parlamentares, do presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes e do próprio Lula, que define como um “sedutor”. “Aliás, ele e Fernando Henrique são sedutores. Só que de maneiras diferentes. O Lula diz palavrão, o Fernando é um lorde”, distingue.

Segundo Jobim, o que fez com que aceitasse o convite para ser ministro foi o acidente da TAM, em 17 de julho de 2007. No dia 25 de julho, aceitou o convite. Logo após assumir o cargo, foi até Congonhas com o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito. “Alguém tinha que mostrar a cara, falar com as famílias, avaliar as condições do aeroporto, mostrar solidariedade”, afirma.

Na viagem, Jobim usou capacete de bombeiros, subiu em escada Magirus, circulou pela pista do aeroporto, foi ao Instituo Médico Legal. Acusado de exibicionismo, ele diz que foi a maneira encontrada para mostrar aos familiares das vítimas e à sociedade que o governo se importava com a tragédia.

A tática, aliás, foi usada em outras situações, como quando usou uma farda de general quatro estrelas – o que chegou a render uma ação criminal. Alguns generais, informa a reportagem, o chamam de “pavão” na surdina.

Jobim relembra ainda as ações tomadas para conter a crise na aviação. Segundo ele, o mais difícil foi a Anac, onde os diretores tinham mandato. “Aquilo era muito desorganizado, cada diretor tinha uma agenda própria e não se falavam entre si”, disse. Sobre Denise Abreu, uma das diretoras da Anac à época do acidente da TAM, Jobim refere-se a ela como “aquela que fumava charuto”.

Genoino

Ainda falando de questões de governo, Jobim tece muitos elogios a seu assessor, o petista José Genoino. Perguntado porque havia tantas idas e vindas no governo na relação com o Congresso, Jobim não teve dúvidas: “Falta um Genoino para ir lá negociar.” “O Genoino é muito competente, sabe tudo de legislação e de Congresso”, conclui.

Ele conta que quando o convidou para ser seu assessor, avisou antes à presidente Dilma.”Mas será que ele pode ser útil?”, teria perguntado Dilma. “Presidenta, quem sabe se ele pode ou não ser útil sou eu”, teria respondido o ministro.

Falando sobre seu amigo Serra, Jobim lembra que se absteve de fazer campanha para Dilma ou para o tucano quando Lula pediu seu apoio. “Presidente, o senhor sabe que sou muito amigo do Serra. Ele foi meu padrinho de casamento. Por razões pessoais inamovíveis, eu não posso fazer campanha senão para o Serra. No entanto, por razões institucionais removíveis, não posso fazer campanha para o Serra: sou ministro do seu governo. A primeira é inamovível, a segunda está em suas mãos”, conta.

Relação com militares

Jobim agradece ao ex-ministro da Secretaria de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, sua boa relação com os militares. “O efeito colateral do embate com o Paulo Vannuchifoi o estabelecimento de uma relação de confiança com os militares. Eu devo ao Paulo a construção da minha relação de respeito com os militares. Ele não sabe disso.” Sua avaliação é que seu posicionamento ao lado dos militares na questão da abertura dos arquivos da ditadura e no debate sobre a revisão da Lei da Anistia o ajudou.

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