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ANÁLISE: O governismo do PSD

Bruno Lupion

29 de maio de 2012 | 23h26

Sérgio Praça*

A criação do PSD, no segundo semestre de 2011, não traz novidade alguma em termos ideológicos ou programáticos. As três “causas” do partido, de acordo com seu website, são: uma nova Assembleia Constituinte, a instituição do voto distrital para eleições parlamentares no Brasil e a transparência dos impostos.

Se o PSD não tem programa, o que ele pode ter de interessante? Para analistas políticos, trata-se de uma oportunidade rara de verificar como – e se – funcionam estratégias de adesão ao governo. Desde que leis e decisões judiciais coibiram enormemente a migração partidária, a única maneira razoável para um deputado federal mudar de partido é entrar em um novo partido.. Quão bem-sucedido está sendo o PSD em seus objetivos? Como o comportamento do PSD se conforma em relação aos argumentos mais freqüentes da ciência política brasileira atual?

Avalio estes pontos com base em três afirmações correntes sobre o PSD, tendo como fonte empírica o projeto “Basômetro”. Até hoje, o projeto conta com 99 votações nominais da Câmara dos Deputados. O PSD surgiu na votação 54, em 26/10/2011. Àquela altura, o DEM, principal partido que deu origem aos membros do PSD, exibia um comportamento misto, mas predominantemente de oposição (Imagem 1).

O PSD, na votação 55, mostrava-se semelhante (Imagem  2).

Considerando isso, a primeira afirmação corrente sobre o PSD que vou olhar é: “PSD tem políticos que eram da oposição”. Esta afirmação estará correta se taxa de governismo dos deputados do PSD for mais baixa do que média do partido de que vieram. O comportamento dos 46 deputados que formaram o PSD foi analisado em 53 votações (ou seja, todas as votações antes da criação do partido). 25 eram mais governistas do que seus partidos de origem, 20 eram menos governistas e um deputado manteve a mesma taxa de apoio ao governo. Pode-se qualificar um pouco, então, o argumento de que os líderes partidários têm bastante sucesso em organizar os votos dos demais deputados. Sem dúvida isto é verdade, mas os dados do “Basômetro” mostram que comportamentos individuais distintos podem ocorrer.

A segunda afirmação corrente sobre o PSD é: “PSD permitiu que políticos que antes não eram governistas passassem a poder votar com o governo”. A afirmação estará correta se o governismo dos deputados que migraram para o PSD aumentar ao longo do tempo, da votação 53 para a votação 99. Há dados para 45 deputados, neste caso. O governismo de 12 deputados diminuiu e o de 3 se manteve exatamente o mesmo. O governismo de 30 deputados, no entanto, aumentou. É correto, então, interpretar que o PSD paulatinamente aderiu mais ao governo (Imagem 3), cumprindo um de seus principais objetivos: permitir que deputados apóiem mais o governo.

Mas será que o governismo não aumentou de modo geral ao longo do tempo? Se isto for verdade, indica que as estratégias da presidenta Dilma Rousseff para manter sua coalizão unida têm funcionado. É exatamente isso que os dados do “Basômetro” mostram. Uma comparação acurada pode ser feita entre deputados do DEM que migraram para o PSD (são 15 deputados) e deputados do DEM que continuaram no DEM (são 28 deputados). A taxa de governismo do primeiro grupo aumentou de 31,13 para 58,06 desde a votação 53 até a votação 99, enquanto a taxa de governismo dos deputados do DEM que permaneceram no partido aumentou um pouco menos no mesmo período, de 19,59 para 28,51.

Fica claro, então, que o governismo aumentou mesmo para partidos de oposição como o DEM. Qual o motivo disso? Será que houve mais votações em torno de assuntos pouco polêmicos na Câmara dos Deputados? Futuras análises poderão desempatar essas questões. A única certeza é: o “Basômetro” é um instrumento indispensável para que isto ocorra.

*Doutor em Ciência Política pela USP, com pós-doutorado pela FGV-SP, e Professor da UFABC – srpraca@uol.com.br.

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