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Em entrevista a blogueiros, Lula ataca governo paulista, critica a mídia e promete virar ‘tuiteiro’

Bruno Siffredi

24 de novembro de 2010 | 08h42

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Bruno Siffredi, do estadão.com.br

Na sua primeira entrevista coletiva exclusiva para blogueiros, realizada nesta quarta-feira, 24, em Brasília, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não poupou críticas à imprensa tradicional, que também foi alvo dos entrevistadores, e atacou o governo tucano em São Paulo, que segundo ele “não brigou corretamente” para sediar o jogo de abertura da Copa de 2014 no estádio do Morumbi. O presidente também falou sobre os planos para seu futuro após deixar o cargo e disse que pretende se tornar um “tuiteiro” e “blogueiro”.

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A entrevista começou com quase uma hora de atraso e foi marcada por problemas técnicos no áudio, que só foram resolvidos por volta da metade do programa. Ao final, a transmissão atingiu seu pico de audiência, chegando a quase sete mil usuários. Ao longo da conversa de quase duas horas, o presidente mostrou bom humor, mas também aproveitou a ocasião para criticar duramente a mídia brasileira.

Copa e Olimpíadas

Sobre as obras para a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016, Lula disse não ver “nada atrasado”. “É que não podemos fazer um campo quatro anos antes”, afirmou o presidente, que garantiu que “várias obras já começaram” e estão dentro do prazo planejado.

Lula criticou o governo paulista por causa da indefinição sobre o estádio onde será realizado o jogo de abertura da Copa. “É impensável São Paulo não ter o jogo de abertura. O Morumbi está pronto, é só bobagem de discutir o estacionamento”, disse. “Acho que São Paulo não brigou corretamente, acho que na verdade é para atender interesses comerciais.” O presidente lembrou que o Corinthians “vai fazer seu estádio” em Itaquera e questionou as exigências da Fifa: “Vem com esse padrão internacional pra nós?”

Cotas e quilombos

Lula defendeu os instrumentos criados pelo governo para “democratizar” as universidades, mas ressaltou que “não basta fazermos uma lei para enfrentarmos o preconceito”. “É um processo histórico que passa pela mudança do currículo, por como vamos ensinar a história do negro no Brasil, na America Latina”, observou.

O presidente disse que tem incentivado a Secretaria de Igualdade Racial a apressar os processos relativos aos quilombolas e que pretende visitar alguns quilombos após deixar a Presidência. “Talvez de fora eu possa dar mais palpite.”

Ao falar sobre o preconceito, que definiu como “uma doença quase que incurável, que está nas entranhas das pessoas”, Lula lembrou o caso da estudante de Direito de São Paulo que fez comentários preconceituosos contra os nordestinos pelo Twitter após o segundo turno da eleição presidencial. “Essa campanha mostrou isso, o fato de alguém dizer que tinham que afogar os nordestinos, se fosse negro diriam que, além de afogar, tinham que pisotear”, afirmou.

PNDH-3

Ao responder uma pergunta sobre o 3º Plano NAcional de Direitos Humanos (PNDH-3), o presidente disse que cometeu um erro ao subscrever a proposta, porque “para aprovar um texto daquela magnitude era preciso um debate dentro do governo”. Ele lembrou a questão do aborto, um dos principais temas da eleição que também é citado no Plano, e disse que o PT tem uma “posição histórica” sobre o tema. “Enquanto cidadão, eu sou contra o aborto. Enquanto chefe de Estado, tenho que entender o aborto como uma questão se saúde pública porque ele existe, tem centenas de meninas fazendo aborto”, disse.

Sobre a mídia, alvo de críticas dos entrevistadores durante toda a coletiva, Lula voltou a afirmar que ele mesmo é “resultado da liberdade de imprensa neste País” e que, por isso, se opõe à censura. O presidente lembrou que o controle social da mídia já estava presente nas duas versões anteriores do Plano e disse que a internet tem um papel importantíssimo no debate político atual porque “agora, quando o cidadão conta uma mentira, ele é desmentido na hora, em tempo real, e tem que se desculpar”.

No entanto, ele contou que deixou de ler jornais e revistas que fazem oposição ao seu governo. “A raiva deles é que não os leio, e é por isso que não fico nervoso. Trabalho com informação, mas não preciso ler muitas coisas que eles escrevem”, disse o presidente, que alfinetou: “Ninguém pode se queixar, muito menos a mídia, todos ganharam muito dinheiro, alguns estavam praticamente quebrados.”

Reformas

Lula indicou que pretende “trabalhar muito” pela reforma política e que seu primeiro objetivo será “convencer” seu próprio partido sobre essa prioridade. “É inconcebível esse País passar mais um período sem fazer a reforma política”, disse. O presidente disse querer “entender o que há de divergência no nosso bloco de esquerda para depois falar com os outros”.

Na entrevista, o presidente disse que foi procurado pelas centrais sindicais para solicitar que fosse criada uma medida provisória para a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais. Ele afirmou que sua resposta foi pedir que transformasse a reivindicação em um “movimento político”, reunindo assinaturas em portas de fábrica. O presidente destacou a bom momento da economia vivido sob seu governo. “Em oito anos de governo, todos os sindicatos fizeram acordos acima da inflação”, lembrou.

Futuro

Questionado sobre seu futuro após deixar a Presidência, Lula afirmou ter a intenção de trabalhar levando “experiências bem sucedidas do Brasil” para países da América Latina e África. O presidente também prometeu passar a utilizar as redes sociais quando deixar o cargo. “Pode ficar certo de que serei tuiteiro, blogueiro. Eu vou ser um monte de coisa que eu não fui até agora”, disse.

STF

Sobre a indicação do novo ministro do Supremo Tribunal Federal que deve substituir Eros Grau, Lula indicou que vai consultar o presidente do Senado, José Sarney, sobre a possibilidade de votar a indicação ainda este ano e, em caso de negativa, deve preferir deixar a escolha para sua sucessora.

Atualizado às 13h24 com informações de Anne Warth  e Elizabeth Lopes

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