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Lampião e o cangaço em novas interpretações históricas

Camila Tuchlinski

22 de junho de 2010 | 15h26

Por Moacir Assunção

O cangaço, um dos mais importantes fenômenos sociais brasileiros, mais uma vez volta a chamar a atenção da historiografia nacional. Os livros Os Cangaceiros, ensaio de interpretação histórica (Boitempo, 316 páginas, R$ 54,00), de autoria do historiador Luiz Bernardo Pericás e O Outro Olho de Lampião, do jornalista Artur Aymoré, cada um em uma perspectiva diferente, jogam mais luzes sobre este tema, quase sempre tratado com algum menosprezo pela academia. O livro de Pericás, que deve se tornar um clássico do assunto em pouco tempo, será lançado hoje entre as 19 e as 22 horas na Livraria da Vila da Alameda Lorena, 1731, Jardins.

Em seu trabalho, construído entre viagens a vários Estados nordestinos, um ano de pesquisas na Universidade do Texas, nos Estados Unidos, considerado um dos maiores centros de estudos sobre o Brasil no País, e leitura de toda a principal bibliografia sobre o assunto, Pericás disseca, com grande rigor histórico, a história e a trajetória de personagens como os chefes do cangaço Lampião, Antonio Silvino, Sinhô Pereira e Corisco. Ao contrário da maior parte da bibliografia existente, baseada em um caráter basicamente narrativo e com linguagem literária, ele utiliza documentação nova e faz a análise criteriosa, com rigor científico de historiador atento a sua época, do assunto.

Na obra de Aymoré, jornalista com passagem por vários veículos, entre os quais o Jornal do Brasil e a Última Hora, o enfoque é outro: ele analisa no trabalho, fruto do seu mestrado em Comunicação Social na Universidade de São Paulo (USP), as notícias sobre Lampião publicadas em jornais nordestinos e do Sul/Sudeste, inclusive o Estado. A visão é visceralmente diversa: nos veículos nordestinos, Virgulino Ferreira é retratado como a “fera do Sertão”, enquanto nos de São Paulo e Rio, os bandoleiros eram vistos, majoritariamente, como vítimas de um sistema social injusto, baseado no poder absoluto do coronel.

Polêmica. Aliás, neste aspecto está a principal discrepância entre as duas obras: escritor de esquerda, biógrafo de Che Guevara e de José Carlos Mariátegui, pensador peruano considerado o “pai” do marxismo latino-americano, Pericás, que dedica um capítulo de sua obra à análise da relação entre Lampião e os comunistas brasileiros, vê como “ingenuidade” considerar o bandoleiro nordestino e seus sequazes como bandidos sociais, a exemplo do defendido pelo historiador Eric Hobsbawn, cujo livro Bandidos acaba de ser republicado.

“A população civil é que estava no meio do fogo cruzado entre os cangaceiros e as volantes (grupos móveis de policiais que perseguiam os bandidos). Quando poderia ter se juntado à luta contra o sistema social injusto, Lampião escolheu enfrentar Luiz Carlos Prestes que, realmente, combatia o regime”, afirma. Ele refere-se ao famoso episódio de 1926, quando o bandoleiro foi armado pelo governo para enfrentar a Coluna Prestes, que percorria o Nordeste no período, ganhando a patente de capitão das chamadas Forças Patrióticas, na verdade um ajuntamento de jagunços e bandidos que combateu os militares de Prestes.

Aymoré, por sua vez, tem uma visão um pouco mais romântica do cangaceiro. Em sua visão, Lampião e seus bandoleiros eram, realmente, bandidos sociais, vítimas da opressão contra a qual teriam lutado. “Lampião protagonizou a mais longa e épica de todas as revoltas sangrentas já surgidas no Brasil. Considerado bandido pela imprensa brasileira, lutava por justiça social e contra um regime de opressão”, define logo na introdução. Na verdade, o bandoleiro aliou-se, sempre que pôde, a alguns dos mais reacionários coronéis nordestinos. O ensaio de Pericás está fadado a ser comparado, dentro do tema, ao clássico Guerreiros do Sol, violência e banditismo no Nordeste do Brasil, do sociólogo e historiador Frederico Pernambucano de Mello, considerado o mais sofisticado estudo sobre a violência no chamada Brasil profundo nos últimos anos.

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