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ANÁLISE: Entre a paixão e a razão política: argumentos sobre a aliança PP e PT em São Paulo

Bruno Lupion

26 de junho de 2012 | 09h19

Marco Antonio Carvalho Teixeira*

A aliança eleitoral entre o PT e o PP em São Paulo chamou atenção pelo fato de juntar Maluf e Lula em prol da candidatura Fernando Haddad. Todavia, quando se busca compreender os motivos dessa aproximação apenas com base nos atores individuais corre-se o risco de conclusões enviesadas caso seja escamoteado o fato de que os dois partidos estão numa rota de consolidação de relações políticas que se iniciou em 2003 com a posse de Lula. Quem pretende entender essa aproximação apenas com base na movimentação de pessoas (Lula e Maluf) provavelmente vai concluir pela existência de uma grande incoerência política. Entretanto, quando se analisa sob a ótica do comportamento dos dois partidos a conclusão pode ser outra. Esse artigo busca juntar os dois argumentos, trazendo inicialmente dados sobre as trajetórias históricas de Maluf e do PT no município de São Paulo e posteriormente destaca a movimentação dos partidos em âmbito nacional e como isso pode ter influenciado a política local.

O malufismo e o petismo possuem, respectivamente, trajetórias e projetos políticos bem distintos. Sempre se digladiaram pela conquista da prefeitura de São Paulo entre 1988 e 2000 em situações que beiravam a intolerância recíproca. Derrotado por Luiza Erundina em 1988, o grupo malufista mobilizou todos os instrumentos políticos disponíveis para desgastá-la. O apoio de conselheiros do Tribunal de Contas do Município na rejeição, por três vezes, da prestação anual de contas da prefeitura é apenas um dos exemplos. Adversário do PT em 1992, Maluf adotou uma estratégia notoriamente antipetista, o jingle cuja frase “a gente não tem nada contra o Suplicy, nós não queremos o PT mandando aqui” foi o principal mote de sua campanha. Vitorioso, imprimiu adesivos que logo começaram a circular em veículos com os seguintes dizeres “sorria o PT não manda mais aqui”. O clima hostil entre ambos continuou sendo a tônica das eleições municipais de 1996 quando Celso Pitta, seu afilhado, elegeu-se prefeito. Naquele momento Paulo Maluf tinha grande prestígio nacional e candidatou-se ao governo de São Paulo. Apoiou FHC contra Lula e promoveu uma cizânia no PSDB quando seu comitê de campanha espalhou outdoors com fotos sua, do seu vice e de Fernando Henrique, onde o então presidente da República supostamente estaria lhe apoiando. Com o desgaste generalizado do governo Pitta, Maluf acabou se candidatando a prefeito em 2000 num embate com Marta Suplicy. A petista saiu vitoriosa com o apoio do PSDB. A disputa foi marcada pela agressividade mútua e Marta chegou a chama-lo, publicamente, de nefasto. Candidata à reeleição em 2004, Marta acabou sendo apoiada por Maluf no segundo turno contra a dupla Serra-Kassab, apesar de utilizar em seu jingle acusações de que Kassab nascera malufista e trabalhara no governo Pitta.

Quais fatores explicam essa mudança brusca na relação de Paulo Maluf com o PT? Questões como a aproximação do PP com o PT em âmbito nacional e o enfraquecimento de Maluf como liderança política após sucessivas derrotas eleitorais para o Executivo que o torna mais um político de partido do que alguém que controla a legenda são pontos a serem considerados.

O Partido Progressista passa a integrar a base de apoio do governo federal desde 2003 com a posse de Lula. Essa relação se consolidou quando o PP assumiu o controle do Ministério das Cidades no decorrer do primeiro mandato de Lula. Em 2006, o partido apoiou a reeleição Lula e desde então vem se mantendo no governo, à frente do Ministério das Cidades, inclusive no governo Dilma. Em pesquisa realizada pelo cientista político Humberto Dantas é possível verificar que a aproximação entre PP e PT também vem se fortalecendo no plano eleitoral. Nas eleições municipais de 2008, os dois partidos estiveram coligados em 1.356 municípios, o que, segundo Dantas, representou um crescimento de 482% se comparado com as parcerias realizadas por esses dois partidos nas eleições municipais de 2000.

A relação política entre o PP e o PT também pode ser avaliada pelo grau de fidelidade do partido ao governo no plano federal. Nesse aspecto, os dados revelados pelo Basômetro são valiosos. A taxa de lealdade do PP ao governo Dilma é de 92% desde a sua posse (figura 1). Assim como ocorreu durante o governo Lula, o deputado Jair Bolsonaro, por razões que são de domínio público, parece ser a única voz dissonante ao votar de maneira mais sistemática contra projetos de interesse do governo Dilma. Na Câmara Federal, o PP é o terceiro partido mais fiel ao atual governo, empatado com o PSB. A taxa de governismo do deputado Paulo Maluf ao atual governo petista é de 89%.

No Senado, a taxa de lealdade do PP ao governo federal atinge 90%, sendo o quinto partido mais fiel (figura 2). A fidelidade média do PP só é superada pela do próprio PT, PC do B, PSB e o PSD, e empata com a do PTB.

Portanto, é possível aceitar argumentos dos dois lados. Os críticos tem razão quando se baseiam nas diferenças de trajetória e no sentimento antipetista quase que inerente ao malufismo. Entretanto, essa posição não se justifica quando a crítica se origina do PSDB e seus aliados. O PP (por meio da sua principal liderança) faz parte do governo Alckmin e de sua base de apoio no Legislativo como também compõe a bancada de sustentação política ao governo Kassab. Existem evidências de que Maluf estaria antes fechado com o apoio a Serra para essas eleições e que os acordos nacionais acabaram pesando nessa mudança.

Também são muito plausíveis os argumentos de que essa é uma aliança partidária e que Maluf inevitavelmente faz parte do pacote como principal liderança do PP em São Paulo. Além do plano federal, o PP governa com o PT o estado da Bahia e apoia governos petistas em outros estados e municípios. Como visto, assim como existem lideranças individuais, partidos também atuam no cenário e (ainda) fazem alguma diferença.

 * Cientista político e professor da FGV-SP.

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