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Encontro entre Gurgel e Arruda está fora do script, diz presidente da OAB

Jennifer Gonzales

25 de março de 2011 | 16h32

Leandro Colon, de O Estado de S.Paulo

O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Ophir Cavalcante, afirmou nesta sexta-feira, 25, que o encontro secreto entre o Procurador-Geral da República, Roberto Gurgel, e o ex-governador José Roberto Arruda, revelado pelo Estado, não deveria ter ocorrido. “Isso está fora do script. Não pode ser normal. Isso não observa a procedência normal que se deve ter entre o réu e o Ministério Público”, disse.

Para Ophir, é, no mínimo, “estranho” que Gurgel tenha tido esse encontro sem relatá-los nos autos do inquérito sobre o “mensalão do DEM” no Distrito Federal. “Na democracia, não se pode ter encontros sigilosos. Não é recomendável”, afirmou. “A melhor conduta, num momento desse, não deveria ser essa”, ressaltou.

Reportagem publicada pelo Estado nesta sexta-feira revelou que Roberto Gurgel escondeu um encontro secreto que teve com Arruda. A reunião sigilosa entre investigador e investigado, que durou pelo menos uma hora, ocorreu fora da sede da Procuradoria-Geral e sem a presença dos advogados de Arruda. O teor da conversa foi o esquema de corrupção no Distrito Federal, mas Gurgel não o relatou nos autos do inquérito conduzido pela subprocuradora Raquel Dodge no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Ela, aliás, foi excluída do encontro.

A reunião, inusitada dentro de uma investigação deste porte, ocorreu no dia 2 de setembro de 2010, às 8h, no gabinete do procurador Alexandre Camanho, no 11.º andar da Procuradoria Regional, um prédio que fica a cinco quilômetros da sede da PGR, em Brasília, onde trabalham Gurgel e a própria Raquel Dodge. O procurador Alexandre Camanho não tem qualquer ligação com a investigação. Por ser procurador regional, não tem atribuição de cuidar do assunto. Mesmo assim, participou do encontro como intermediário.

Na versão apresentada pelo procurador Camanho, Arruda o procurou para intermediar uma conversa com o procurador-geral da República. “O governador manifestou interesse em colaborar com as investigações e pediu para encontrar o procurador Roberto Gurgel. O procurador-geral perguntou onde estariam as provas e os documentos dessa colaboração e agradeceu. Nada além disso”, disse.

A reportagem indagou Gurgel por que aceitou conversar informalmente com Arruda, já que, segundo o próprio Camanho, não se discutiu a concessão da delação premiada. Gurgel disse, por meio da assessoria, que teve uma conversa “preliminar” com o ex-governador e que entendeu que não era “útil” transformá-la em depoimento. Por isso, afirmou Gurgel, o encontro não está nos autos do inquérito no STJ. Questionado se a procuradora Raquel Dodge foi informada sobre o encontro secreto, Gurgel não respondeu. Disse só que trabalha “em conjunto” com ela.

Já Arruda não quis falar sobre o assunto. Seus advogados, que ficaram de fora da reunião, dizem que “desconhecem” o encontro. Até hoje aguarda-se a denúncia à Justiça contra os envolvidos no escândalo, que estourou em 2009 na “Operação Caixa de Pandora” com base em depoimentos de Durval Barbosa, delator do esquema. Obrigado a deixar o DEM, Arruda foi cassado e passou dois meses preso.