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Curiosidades das Eleições: O pavor do imprevisto

Jennifer Gonzales

07 Julho 2010 | 17h47

Por Roldão Arruda

A presença cada vez maior de publicitários nas campanhas eleitorais tende a torná-las mais assépticas e previsíveis ano após ano. Os programas exibidos no horário gratuito na TV aproximam-se despudoradamente de comerciais de carros, sabonetes ou qualquer outro produto à venda. Mas, por mais se tome cuidado e se engrosse o entourage dos candidatos, com assessores que cuidam da escolha das roupas às palavras dos discursos, eles acabam enfrentando imprevistos e trapalhadas. E é nessas horas que se vê até onde vai a capacidade de improvisação e o jogo de cintura.

Um exemplo disso aconteceu na segunda-feira, 5, à noite, em Santo André, durante encontro de candidatos do PT com militantes da região do ABC Paulista. Pela programação oficial, o discurso de Dilma Rousseff, após quase uma dezena de outros convidados, deveria ser o ponto apoteótico, com música retumbante e salvas de palmas.  Não foi o que aconteceu.

Lá pelo meio do discurso da petista, uma equipe de profissionais do CQC, programa da TV Bandeirantes, irrompeu no salão, provocando tumulto. Alguns petistas queriam expulsão à força. Outros defendiam a permanência. Muitos corriam para fotografar ou ser fotografados ao lado do repórter famoso. Os mais ousados saltitavam ao redor da câmara na tentativa de virar personagem.

Dilma foi obrigada a parar. Como não era a primeira vez que isso ocorria, ela já sabia o que dizer: “Apelo a vocês para que deixem o CQC trabalhar aí no plenário. Temos que mostrar que somos democratas.”

Foi simpático e lhe valeu aplausos. Mas o tumulto prosseguiu e ela terminou o discurso quase constrangida frente a excitação dos petistas ao redor da celebridade da TV.

No dia seguinte foi a vez de Marina Silva. Estava previsto que pisaria de maneira muito animada no primeiro dia da campanha oficial, no Rio, ao lado de Fernando Gabeira, a segunda estrela mais brilhante do PV, depois dela. Não deu certo, porque o deputado e candidato ao governo do Rio ficou preso em Brasília, envolvido com o debate sobre o código florestal.

No início da manhã, os assessores de Marina ainda não sabiam o que fazer. Improvisou-se o lançamento de uma campanha para estimular famílias de simpatizantes de Marina a criarem voluntariamente comitês de apoio em suas casas. Às 9h30 localizou-se um simpatizante que topou receber a candidata em sua casa, em São Paulo – o que ocorreu no meio da tarde.

Foi uma saída interessante. Teria sido melhor se, ao final do evento, durante uma concorrida coletiva de imprensa, a candidata não tivesse negado de forma tão veemente que nada tinha sido improvisado. Podia ter dito que há males que vem para bem.

Foi uma resposta dessas que salvou Geraldo Alckmin (PSDB) no último evento do primeiro turno da campanha pela Prefeitura de São Paulo, em 2008. Ele pretendia encerrar as atividades com uma carreata pelas ruas da capital paulista, a bordo de um jipe sem capota, acenado para seus potenciais eleitorais. Poucas ruas depois, porém, foi obrigado a apear e fugir de uma chuva inesperada. Mas não se deu por vencido e disse aos jornalistas: “Chuva é sinal de sorte. Sinal de fertilidade. É uma chuva criadeira.”

Boa resposta. Infelizmente para ele, porém, não lhe deu sorte. O tucano não passou do primeiro turno.

Situações imprevistas apavoram os marqueteiros, acostumados a controlar a luz, a cor, o tempo, os aplausos e até as emoções nos estúdios de TV. São elas que explicam a estratégia de afastar o candidato de debates assim que ele desponta como franco favorito nas pesquisas de opinião sobre intenção de voto. Afinal, para que correr o risco de uma resposta desafinada, capaz de arranhar a imagem do produto, se ele vai bem no mercado?

Na campanha presidencial de 1998, o presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), com a reeleição praticamente garantida, fugiu dos confrontos como diabo da cruz. É a mesma fórmula que Dilma Rousseff (PT) pretende adotar agora, a menos que as pesquisas eleitorais não a favoreçam daqui para a frente.