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‘Chamavam a gente de filhotes da ditadura’

Bruno Siffredi

18 de junho de 2011 | 00h22

Ravel_SergioCastroAE20100222.jpgFoto: Sergio Castro/AE – 22/02/2010


Fausto Macedo, de O Estado de S.Paulo

O cantor Eduardo Gomes de Farias, o Ravel, morreu, aos 64 anos, no início da tarde de quinta feira, 16, em São Paulo.

Ravel, da dupla Dom&Ravel, criadores de Eu te amo meu Brasil – grande sucesso do início dos anos 70, auge da repressão política no País -, sofreu um infarto fulminante quando tomava banho em sua casa, na zona Norte da cidade.

O corpo de Ravel foi sepultado nesta sexta-feira, 17, no Cemitério do Araçá.

O cantor deixou Rejane, a Janinha, sua mulher, com quem era casado há 37 anos, e uma única filha, Priscila.

Seu irmão, Eustáquio Gomes de Farias, o Dom, morreu em dezembro de 2000, de câncer de estômago.

Dom e Ravel eram cearenses de Itaiçaba. Crianças eles se mudaram-se para São Paulo.

Eduardo virou Ravel por causa de um professor, que via nele talento para a música e assim passou a chama-lo.

No início dos 70, o Brasil presidido pelo general Emílio Garrastazu Médici, os irmãos ganharam fama de cancioneiros da repressão com a música que empolgava os militares, “Eu te amo meu Brasil”, gravada inicialmente pelo conjunto Os Incríveis.

Abaixo, entrevista que Ravel concedeu ao Estado, em janeiro de 2010, em sua casa, ao lado de Rejane:

O pau cantava solto nos porões e eles recitavam Eu te amo meu Brasil com o orgulho de quem o Hino Nacional interpreta.

Nos palanques com a chancela dos generais falavam de praias ensolaradas e mulatas cheias de calor, singelos versos para um Estado de duas faces – a do milagre econômico e a de um povo sem direitos nem habeas corpus.

Era 1970. No México, nosso escrete de ouro, que tinha Pelé, Tostão e Rivelino, conquistava o tri mundial de futebol. A Jules Rimet nossa para sempre. Na vigência plena do AI-5 o País mergulhado no arbítrio. Ame-o ou deixe-o! as opções que o regime concedia.

Quarenta anos depois do lançamento de Eu te amo meu Brasil e às vésperas de uma nova Copa, a da África do Sul, o homem de passos inseguros, que busca equilíbrio e amparo no vazio, surge à porta em arco da casa antiga e desbotada, de roseiras e orquídeas perfumadas no jardim. “Olá, sou Ravel”, ele se apresenta, a voz firme, a mão direita estendida.

Seu nome é Eduardo Gomes de Farias, apenas Ravel, que é como o Brasil o conheceu nos anos de chumbo.

A história o tornou famoso como o cancioneiro da repressão, o porta-voz das sombras.

Dom, seu irmão, morreu a 1.º de dezembro de 2000, vítima de um câncer no estômago.

Óculos de aros largos e lentes escuras escondem os olhos de Ravel, olhos que não veem.

De um golpe inesperado, numa noite de inverno, julho de 2006, ele ficou cego enquanto dormia.

Houve um tempo em que Dom e Ravel, mais que a glória e o apreço dos generais, tinham dinheiro à farta.

Corriam o País, de Norte a Sul, com o seu Eu te amo meu Brasil, estupendo sucesso nas rádios e nos programas de auditório de TV.

Na casa avarandada que pertence à Eva, sua irmã, Ravel, aos 63 anos, leva uma vida despojada, na companhia da coleção de vinis, o bem que lhe restou.

Mantém-se com os quatro mínimos que a Previdência deposita em sua conta a título de aposentadoria por invalidez.

A casa onde mora fica no lado par de uma rua pacata de Vila Albertina, próximo a um córrego que corta aquele pedaço da zona Norte, e para lá ele se mudou há 9 anos, desde que sofreu a violência de um assalto a mão armada na Serra da Cantareira. “Levaram tudo, meu irmão…”

Na passagem lateral da residência dois carros velhos ao relento se desmancham.

São dois Ladas, um com 14 anos de rua, o outro com 18, e nenhum deles pega mais, nem no tranco. “Falta muita peça, estão aí parados, meu irmão.”

Dos carros sem valor não pode se desfazer porque estão em processo de inventário, assim como a casa.

O homem que idolatrava o Brasil amordaçado e que no peito dizia carregar o coração verde, amarelo, branco, azul, anil, agora tateia uma Nação corrupta, sem ética, varrida pela imoralidade e pela violência desmedida – segundo seu parecer.

Julga o País entregue a desmandos e à malversação da coisa pública, mas exclui desse quadro caótico o presidente Lula. “Ele é o cara”, faz eco a Barack Obama.

Passa horas a fio em seu retiro e a solidão ele tenta superar ao lado de Rejiane, a companheira que no auge conheceu e que o trata com amabilidades e carinho.

Janinha é como a chama e logo ela vem para servi-lo – na bandeja traz o copo de café preto. “Sim chefinho!”
Em um ambiente contíguo à sala de estar, que tem uma janela para o canteiro de jasmins, Ravel ainda compõe. Mas é só para ele. Sua rotina são as letras de protesto, canções marcadas pela angústia e lamentos.

A voz que idolatrou o Brasil submerso na repressão agora brada por Justiça, honestidade e transparência.

Aponta injustiças, clama por direitos de um “povo aflito” e de “irmãos sofridos”.

Amor e trégua para o País desajustado ele prega. “Eu peço paz, paz, paz”, cantarola, o indicador e o polegar da mão direita dando o ritmo.

Nos tempos em que cantava um Brasil feliz e dourado, a censura calava os opositores do regime.

Não há tesouras no caminho de Ravel, que ora aponta críticas à política e aos desmandos de governo.

A nova face do antigo ícone da ditadura não preserva nem mesmo os militares.

A mágoa que carrega, diz, é porque a História não lhe deu, nem a seu irmão, a oportunidade da réplica.

Alega que queria provar ao mundo que não fez serviço sujo e que não era cúmplice de uma repressão sangrenta, muito menos estava a serviço dos quartéis – marca indelével que Dom&Ravel carregam por todo o sempre.

Como era o País do Eu te amo meu Brasil?

Não era tão ruim assim como dizem. Era diferente. Eu sou contra a ditadura e todo tipo de repressão. Naquela época eu vivia como todo brasileiro, com medo, a gente tinha medo, mas tinha respeito pela autoridade, embora ela fosse abusada. Mas você podia sair a hora que queria, numa boa. Agora não, meu irmão. Você não sabe mais se tem medo do bandido, medo da polícia, não sabe quem é quem. Misturou tudo. Que façam uma varredura legal, quem é quem, separem o joio do trigo e comecem o exemplo lá de cima. Mas para isso precisa de governantes que conquistem a confiança de todos nós e que sejam honestos com o eleitor. Não é ir lá para ficar rico, pegar a chave do cofre do Banco Central e fazer o que dá na telha.

É um discurso de palanque?

Eu não sou político, nem pretendo ser. Não sou candidato a nada. Fui filiado, montei o diretório do PDT na zona Norte nos anos 80. Fui vice-presidente do diretório no Jaçanã, depois fui para o Partido da Mobilização Nacional, o PMN, eu me identificava com a filosofia deles. Mas não pretendo mais sair candidato. E olha que tem muito convite. Não quero porque tenho consciência que nasci para ser artista, compositor, para cantar e levar alegria. Deus me deu esse talento.

Militares no poder outra vez?

Deus me livre, cruz, credo! O que é isso? Mangalô três vezes (bate na madeira). Não é por aí, meu irmão. O que precisamos no Brasil é de novidade, é gente nova. Parei de cantar para dar espaço para outros artistas, geração nova. O artista aqui quer ficar perpetuamente, não divide o espaço dele, não ajuda. É um ferrando o outro, meu compadre. É concorrência, é a lei da vantagem. Pisam no semelhante, ganância, maldade.

Virou as costas para quem o apoiou?

Não, estou sendo cuidadoso. Sou uma pessoa que parou para fazer uma auto crítica do passado, uma avaliação de tudo o que aconteceu comigo para traçar um novo caminho, uma nova estrada para seguir. Minha meta é ajudar o meu País, é ver o Brasil crescer. Não ficar fazendo espetáculo enganando o povo na TV.

Mas vocês abraçaram o lema Ame-o ou Deixe-o

Não foi assim meu irmão. Fizemos o Eu te amo no entusiasmo das belezas naturais do nosso País. Vivíamos um momento de grande expectativa do tricampeonato no México.

Hoje você acha que os generais foram um mal para o Brasil?

Olha, tinha gente boa, muito competente e honesta no governo militar. Um dos honestos eu vou citar, João Figueiredo (general-presidente entre 1979 e 1985). Eu tenho orgulho de dizer que ele era meu amigo. Era um homem sério, um homem correto, um homem de palavra. Eu tive a felicidade de conhecê-lo.

Você quer os generais de volta?

Não. Você pode recuperar tudo na vida, mas o que passou já era. Eu nasci com metas, ir para a frente. Esse negócio de andar de marcha a ré é para caranguejo.

E a aliança com a direita?

Meu irmão, Dom e Ravel foram perseguidos pela esquerda e pela direita, você já viu alguma coisa semelhante no Brasil? Chamavam a gente de filhotes da ditadura. É tanta da mentira que falam a meu respeito, tanta calúnia, tanta coisa errada, entendeu? E eu não vou atrás de processar ninguém, primeiro porque eu sou espírita, eu sou kardecista, eu me identifico com a doutrina. Nos anos 70, a gente vivia glórias. Mas nós éramos perseguidos pela esquerda. As pessoas achavam que éramos engajados. Os militares recrutavam a gente, nós éramos recrutados.

Eu te amo meu Brasil não era o hino do regime de exceção?

Nós fizemos Eu te amo meu Brasil, Só o amor constrói e Você também é responsável. Essas músicas têm tudo a ver comigo, com a minha infância, com a minha luta na periferia. Foi aí que veio a inspiração. Essas 3 músicas foram usadas, o governo militar usou.

Como foi a aproximação com o general Emílio Garrastazu Médici?

Nós o conhecemos sim. Nos encontramos no primeiro aniversário do Mobral, em 1971. Foi em Jundiaí, no ginásio de esportes. O Médici quebrou o protocolo, ele veio nos abraçar, a mim e ao Dom. Eu disse a ele: ‘É um prazer e uma honra conhecer o presidente Médici’. Ele respondeu: ‘A honra é minha porque vocês são pessoas com ideais patrióticos para fazer músicas como essas.’ Essa imagem foi muito explorada pelas pessoas invejosas. Todo mundo falava que Você também é responsável era hino do Mobral. Mas era apenas uma música que incentivava a alfabetização do adulto. Nunca recebemos dinheiro algum do governo. Nunca fizemos música encomendada para governo nenhum, nunca, um tostão, nada.

Mas você e seu irmão não enriqueceram com o aval da ditadura?

Meu irmão, essa é uma mentira das grandes. Onde estão os aviões?, as fazendas?, todo esse dinheiro que disseram que a gente tinha? Eu nunca tive um imóvel no meu nome, nunca comprei nada. Eu nunca tive sequer passaporte. A Janinha tinha um carro sim, mas foi obrigada a vender para ajudar aqui na casa. Eles queriam oficializar o Eu te amo meu Brasil como hino nacional. Mas nunca pagaram nada para nós. Andaram falando que a gente ganhou rios de dinheiro a serviço da ditadura. É mentira. O governo usou as nossas músicas e nunca deu um tostão para nós. Na verdade, de tanta aporrinhação, de tanta perseguição política, os nossos shows sofriam uma violência muito grande. Quando a gente chegava numa cidade o Dops (polícia política) escoltava a gente, era um comboio para nos proteger. Onde a gente chegava vinham aquelas pessoas influenciadas pela mídia para nos hostilizar. A gente sofria isso na pele. E os outros músicos nem queriam tocar com a gente.

Dom&Ravel não era o xodó dos generais?

Olha, tinha uma agência de publicidade que cuidava dessa mídia para o governo. Teve aquele evento, o do aniversário do Mobral, onde o presidente Médici veio nos abraçar. Isso aí foi explorado durante muito tempo. Com o presidente João Figueiredo (último dos generais no Planalto) a gente se encontrou em 78, quando lançamos Obrigado ao Homem do Campo. Em duas semanas a gravadora nos deu um disco de ouro. A gente decidiu dar esse disco para o João porque ele estava com a atenção voltada para a agricultura, era um homem que tinha interesse em valorizar a agricultura. Por isso a gente gravou Terra Boa e Você também é responsável.

O sr. se arrepende de ter subido no palanque dos generais?

Não me arrependo. E tem mais: se eu não fizesse isso eu podia ter o mesmo fim que outros artistas tiveram. Mas veja bem: acredito que o meu sucesso com o meu irmão causou um prejuízo muito grande para outros artistas e isso deve ter provocado uma dor de cotovelo tremenda porque tudo é competição. Todos os mercados são assim. A música não é diferente. Teu sucesso implica na infelicidade de outros, no prejuízo de outros. Aí criou-se uma animosidade na classe artística que já muito desunida, cada um para si, não divide o espaço. Ninguém ajuda ninguém meu irmão. O nosso estouro causou um monte de inimigos no meio. Dom e Ravel sempre gostaram de dizer a verdade. Não existia, nunca existiu mentira com Dom e Ravel. Infelizmente no Brasil em todos os setores o que mais rola é mentira.

E os porões?

Nós tínhamos conhecimento, ouvíamos falar que existia a perseguição política aos comunistas, aqueles que eram contra o governo. O pessoal da esquerda. A gente tinha medo também de que aqueles sumiços nos alcançassem. Tínhamos ciência do que estava acontecendo no País. A gente era observado e vigiado 24 horas por dia. Quando a gente chegava em qualquer cidadezinha para fazer um show tinha sempre os buxixos entre os seguranças que trabalhavam para as celebridades. Eu sempre fui muito atento a tudo pela minha origem de periferia. Tinha policial do Dops, tudo o que você pode imaginar, olha tem araponga na área, tem dedo duro, tem ganso, tem traíra, arapongagem para todo lado, pá e tal. Você sabia que estava sendo vigiado. Eu sou espírita, uma coisa diferente. Talvez a mediunidade muito aguçada. Você se arrepia com coisa boa e com coisa ruim e sabe distinguir isso com o tempo, com as orações, a dedicação à medida em que você vai limpando a área e se apegando a Deus. Você vai tendo isso mais forte e melhor na pele, entendeu? Então eu sentia quando as coisas boas estavam acontecendo e as ruins estavam para acontecer.

O que precisa mudar na política?

Tem que acabar com imunidade parlamentar, tem que fazer uma lavagem, uma varredura nesse País, em todos os políticos, em todos os homens públicos. Nasceu onde, quando, o que tem, o que o seu pai tinha… Faz uma varredura em todo político nesse País, pega a Federal e põe atrás, mas não é botar arapongagem. Hoje misturou tudo. Ninguém sabe quem é quem. Você tá deitado na cama com sua esposa e ela é espiã, conta tudo o que ela sabe sobre você prá outro.

O governo Lula?

Uma decepção. Estou completamente decepcionado. Eu votei no Lula. Não é essa a democracia. A corrupção continua aí, solta. A gente esperava que fosse transparente, mas não é. O que falta nesse país é isso. Transparência. Votei no Lula nas duas primeiras vezes (1989 e 1994). Sempre sonhei com um país democrático, com um candidato que pudesse dizer: olha, a primeira coisa que vou fazer é acabar com esse negócio de imunidade parlamentar. Para começar a moralizar o País e o político brasileiro. A maioria sai candidato por causa da sua ficha criminosa, por causa do seu passado, dos seus comprometimentos. Eles querem a imunidade para encher os bolsos de dinheiro. Pensam só neles, o povo que se dane. Pensam em alguma organização que bancou a campanha e deixou ele de rabo preso.

Cantaria Eu te amo no palanque do Lula e da Dilma?

Eu subiria no palanque deles, mas não aceitaria um tostão, cachê nenhum. Continuo amando o Brasil. Sempre foi assim. Quando Dom e eu pintamos num palco pela primeira vez, em 1967, nossa primeira música foi Terra Boa.

Como era a letra?

Terra boa, terra boa, tão plantando tudo compadre vamos plantar é da boa, é da boa, tão quebrando cana que é prá Joana chupar.

Por que Dom e Ravel romperam?

Nos separamos umas 4 ou 5 vezes. A primeira foi quando a gente estava no topo, em 1973. Com as perseguições políticas começou a pintar uns conflitos entre o público que era fã de Dom e Ravel e os que nos agrediam. A gente fazia muito show em praça aberta e aí o pau comia. Uma parte da plateia gritava ‘aí puxa saco do governo, filhote da ditadura’, entendeu? Palavreados pejorativos que a patrulha ideológica criou, o pessoal da esquerda não gostava da gente. Aí eu escrevi Animais Irracionais, por causa dessa violência toda contra a gente. Dom foi contra. Ele disse ‘você tá ficando louco’. Eu insisti.

Como criaram Eu te amo?

Meu irmão, foi na rua Tabatinguera (centro de São Paulo, esquina com a Sé). Foi no banheiro da quitinete onde a gente morava, minha mãe, o Dom e eu. A gente tinha um violãozinho velho. Naquela época criou-se um clima no País, aquela esperança, aquela corrente pelo tricampeonato de futebol. Aquilo uniu o povo. Era a euforia da Copa. Minha parte foi no refrão e na melodia. A gente foi lembrando das praias, das nossas mulheres belas, o Brasil ensolarado…Quem gravou primeiro foi Os Incríveis. Mas estourou mesmo foi com Dom&Ravel.

Ganharam dinheiro?

O governo usou Você também é responsável, que fizemos antes do Mobral existir. Depois é que veio o Mobral. E fizemos Só o amor constrói. O governo usou essas duas canções nossas e o Eu te amo meu Brasil. Usou as três, foi uma loucura. Usou de que forma? Nas emissoras de rádio tocando, massificando, o povo pedia aquela coisa toda nos eventos oficiais do Exército, como a Expoex, nas Minas Gerais. Eu dividi palco com a Elis, a Rita Lee com os Mutantes, entendeu? Da mesma forma que eu ia eles iam também. Eram recrutados para fazer essas exibições, participar desses eventos. Participei aqui no Ibirapuera, o aniversário do Mobral em Jundiaí, em 1971. Essas exibições se davam dessa forma. Eles vinham para cima: recrutamos vocês, para vocês se apresentarem em tal evento, assim assado. Nunca recebi um tostão por essas apresentações. A gente ia com a nossa banda, tudo certinho, a gente cantava.

Volta a gravar?

Até posso fazer uma produção se eu encontrar um talento novo, um bom artista. Posso produzir e transmitir tudo o que sei, meus conhecimentos. Mas não quero gravar. Não tenho interesse. Nem tenho contato com nenhuma gravadora. Do jeito que esculhambou o mercado, gente sem talento, padre fazendo sucesso, se metendo a cantar sem talento, pastor se metendo a cantor. Um monte de gente fazendo forró brega só porque tem dinheiro. E você não sabe de onde vem esse dinheiro, se vem do crime organizado. É muito lixo musical tocando. O que é isso meu irmão? Eu tenho vergonha, eu sou família, nunca me envolvi com droga. Músico para tocar na minha banda eu digo logo na cara: ‘meu irmão, se liga aí que aqui não rola droga, não quero droga, quero respeito porque venho de uma origem, de um período onde para você fazer sucesso tinha que ter muito talento.’ Mas também tinha veado e maconheiro, isso é verdade. Se fosse mulher tinha que ser prostituta ou sapatão, mais ou menos assim. Muito colega meu morreu na droga, na maconha, na cocaína e outras drogas aí, bebida e tudo mais. Morreram nos vícios. Não vou citar nome. Todo mundo sabe. Desgosto, decepções. Então ficava difícil para nós, tinha que mostrar talento, um negócio de doido, muita concorrência. Era gente que estudava música, que se dedicava, um melhor que o outro. Nos anos 70 tinha isso de bom. Hoje o camarada chega no show fedendo. Dá licença meu irmão.

A música …

O problema, meu irmão, é que hoje você põe padre prá cantar, pastor evangélico, bispo, prostituta, filha de não sei quem, amante do outro. Hoje fabricam o artista que não sabe de nada, não sabe o que é música, nunca estudou, não sabe o que é divisão musical e nem harmonia, não tem voz e nem talento. Mas põe prá cantar porque tem o rosto bonitinho.

A perda da visão.

Fui dormir enxergando e acordei assim, sem luz nos olhos. Foi em julho de 2006. Eu tinha sofrido um acidente muito feio, mas não foi por isso que fiquei cego. Fui a um especialista, o dr. Eurípides. Ele me disse que era um glaucoma. Eu sempre tive miopia. Sempre fui míope e tinha astigmatismo. Tinha 10 graus numa vista, 13 na outra, era miopia da alta. Depois ela foi aumentando rapidamente. Aconteceu esse lance. Eu sempre usei lente de contato. Fui dormir, quando acordei no dia seguinte: epa! não estou enxergando nada, Janinha me ajuda aqui!

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