Battisti diz não acreditar em retaliação contra o Brasil: ‘A Itália sempre foi um blefe’
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Battisti diz não acreditar em retaliação contra o Brasil: ‘A Itália sempre foi um blefe’

Jennifer Gonzales

28 de janeiro de 2011 | 14h19

Em entrevista ao jornal Brasil de Fato (edição 413, nas bancas nesta sexta-feira, 28), o ex-ativista italiano Cesare Battisti disse não acreditar em retaliação da Itália contra o Brasil em função da decisão de não extraditá-lo. “A Itália sempre foi um blefe. É a Itália quem precisa do Brasil. O que a mídia passa é muita mentira”, disse.

Parte da entrevista já havia sido antecipada no dia 21,quando circulou a declaração de Battisti de que ‘me derrotar é derrotar o Lula”.

Battisti é acusado de assassinatos na Itália na década de 70, quando integrava o grupo Proletários Armados pelo Comunismo. Ele nega todas as acusações. Está preso no Basil desde março de 2008. Em 2009, o então ministro da Justiça, Tarso Genro, concedeu asilo político.

No mesmo ano, o Supremo anulou a decisão de Tarso, mas definiu que a decisão final sobre a extradição de Battisti caberia ao presidente da República. Em seu último dia de mandato, Luiz Inácio Lula da Silva negou a extradição. A defesa de Battisti pediu em janeiro de 2011 sua libertação, o que deverá ser decidido pelo pleno do STF em fevereiro.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

Itália

A Itália nunca teve força para estar entre os países mais ricos do mundo. Já teve por causa da Otan [Organização do Tratado Atlântico Norte] e da máfia que enche os cofres dos bancos do mundo. A Itália sempre foi um blefe. É a Itália quem precisa do Brasil. O que a mídia passa é muita mentira. Na Itália tem muita gente que me defende. Se eu for para lá, vai ter bagunça e o Berlusconi sabe disso.

Já não é meu país. Eu me formei como cidadão do mundo. Quando abandonei a Itália, eu ainda era muito jovem. Então, para mim, essa coisa de pátria não cola. Para mim, essa coisa da pátria não tem sentido. Perdeu sentido, digamos.

Inimigos

Meus inimigos são os que querem esconder os anos de chumbo. A mídia faz de tudo para apagar o contexto histórico. Governo e oposição são os mesmos dos anos de chumbo: democracia cristã e PCI, Partido Comunista Italiano. O PCI era partido mais stalinista, mas que não podia controlar o poder. Eles foram os mais cruéis para nós. Torturadores. E hoje eles seriam a oposição ao Berlusconi. Mas não existe oposição, o PCI não tem nenhum programa político. Quando Berlusconi, que sabemos quem é, fala que a oposição quer ganhar as eleições com um golpe do Judiciário, está falando a verdade. Como já aconteceu uma vez. Eles chegaram uma vez, entre dois mandatos do Berlusconi, com um golpe. Porque o Judiciário era controlado pelo PCI, o PCI controlava os magistrados italianos. Nos anos de chumbo, os melhores magistrados eram do PCI e continuaram sendo, alguns deles são candidatos. Na ditadura eles organizavam e assistiam sessões de tortura. Torturavam o movimento revolucionário, desde as Brigadas Vermelhas até a autonomia, os PAC. Um deles era Armando Spataro, que não era filiado, mas tem relações com o PCI. Ele era o torturador de Milão. Na Anistia Internacional, tem documentação sobre isso. E ele é o procurador que hoje me persegue. Ele é o procurador geral de Milão e ainda é o procurador europeu-italiano de terrorismo.

Vida no Brasil

Cheguei aqui, não conhecia ninguém e se criou um movimento a meu favor. Isto acalenta muito o coração.

Quando cheguei já tinha minha foto por todos os lados. Sabia que estava sendo monitorado; então não tomei nenhum contato com os italianos refugiados aqui, nem com nenhum movimento. Tentava preservar a eles e a mim. Mas como eu não posso ficar longe de problemas, subia os morros todos os dias. Sentava no boteco, tomava uma cervejinha e a dona do boteco tinha um filho preso. Ela era analfabeta e me pedia para ler as cartas do filho e também responder. E assim, eu estava aí em três morros, tinha contato excelente com todo mundo.

Santa Marta, Tabajara e Cantagalo. Virei o escrivão dos morros. E eu sempre trabalhei com isso. Na França eu tinha permissão do Ministério da Polícia e do Ministério do Interior para fazer oficinas de redação. Para mim foi Naturale todas as viaturas da PM me conheciam, porque em todo morro do Rio tem uma viatura lá embaixo. “Aí vai o gringo”, falavam. Subia o morro para poder me sentir vivo.

[Recebi apoio]De muita gente, do PT e até do PSDB. Quando eu fui preso, o Fernando Gabeira chegou com alguns deputados do PSDB. Claro, eles não sabiam muito bem o que estava acontecendo e logo se afastaram, inclusive o Gabeira. (…) Quando ele se deu conta de quem era eu, ou melhor, do que a mídia fez de mim, ele tomou distância.

 Ideologia

Sou anarco-comunista desde sempre, por considerar leninismo acabado. Mas sou do anarquismo organizado, um anarco-marxista, porque existe um outro núcleo forte do anarquismo que é individualista.

Acredito que estamos criando condições para o socialismo. A social-democracia no norte da Europa, com políticas de bem estar social, avançou. Mas está caindo porque o bloco liderado pelos Estados Unidos, de liberalismo selvagem, que não tem custo com seguridade social, é uma concorrência muito difícil, cruel. A Venezuela está fazendo o melhor que pode. Não avançou mais porque o país não permitia. Era quase feudal. Não se pode achar que trocando de presidente o país vai mudar do dia para a noite. E Cuba, se não fosse o embargo, poderia ser a melhor democracia do mundo.

Luta armada

O Estado nos empurrou para a luta armada, porque só assim poderia derrotar o fortíssimo movimento cultural que havia. O movimento revolucionário italiano chegou a ter mais de um milhão de pessoas. Mas caímos na armadilha e acabamos fazendo o jogo do poder. Eu não posso dizer que a luta armada não é viável no mundo inteiro,l mas no mundo que eu conheço não é mais. Acho que a revolução é eliminar as classes, mas não passa pelas armas, mas sim pela cultura e educação.

Vida em liberdade

Não sei fazer outra coisa além de escrever e trabalhar com coletividades. Pretendo fazer um trabalho social a partir da escrita. Talvez não tenha o direito de fazer política, mas vou fazer cultura. (…) Se acontecer algo comigo, Berlusconi terá de prestar conta.

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