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ANÁLISE: Quem dá as cartas nas bancadas partidárias?

Redação

25 de maio de 2012 | 18h23

Por Humberto Dantas*

O Basômetro conquistou o cientista político que gosta de olhar para o Legislativo. Dentre várias questões instigantes, existe a possibilidade de analisar como se comportam os partidos que têm seus presidentes ocupando uma cadeira na Câmara dos Deputados. Existe coerência entre a posição desse político e aquela tomada pelo líder da bancada no conjunto de 98 votações nominais ocorridas até o início de maio? Cinco legendas oferecem a oportunidade de promover tal análise: PSDB, PV, PPS, PT do B e PSOL.

Os tucanos estiveram unidos ao governo Dilma em 22% dos posicionamentos de seus parlamentares. Isso os coloca em condição clara de partido de oposição, se é que tal fenômeno se mede pelo gesto de ser contrário sempre. Sérgio Guerra (PE), presidente nacional do PSDB, tem média próxima a esse resultado: 29%, e seu atual líder, o também pernambucano Bruno Araújo, aproxima-se mais da média: 24%. Chama atenção no gráfico a posição de Walter Feldman (SP), que esteve com o governo em 56% de suas votações. O deputado paulista assumiu o mandato em 2012, e a partir de então não podemos afirmar que sua plumagem adquiriu tom avermelhado, mas sim que o PSDB se aproximou do governo: em 2011 a média de adesão à Dilma foi de 17%, saltando para 46% em 2012, o que torna possível classificar o comportamento de Feldman como “equilibrado sob a atual tendência” (figuras 1 e 2).

Equilibradas também são as médias do oposicionista PSOL e do governista PT do B, ambos com bancadas coesas de três deputados. O primeiro tem média de 29% de adesão ao Planalto, sendo que o líder Chico Alencar (RJ) acompanha Dilma em igual percentual de suas votações e o presidente Ivan Valente (SP) em 27% delas. O ex-BBB Jean Willys (RJ) destoa com 36%. No caso do PT do B, encontramos 84% de apoio ao governo, e enquanto seu presidente Tibé (MG) repete a média, sua mais nova líder, Rosinha da ADEFAL (AL) tem 78%. Os índices são muito próximos àquele apresentado pelo líder do bloco encabeçado pelo Partido da República e composto por outras cinco legendas de menor expressão além do PT do B: Lincoln Portela (MG) apoia Dilma Rousseff em 83% de suas votações.

E quando o assunto são blocos partidários, destaca-se o comportamento da dupla PPS-PV, que formam um desses conjuntos unidos. Unidos em que sentido? Se o assunto for votação nominal, os 34% de apoio do PPS ao governo federal são bem diferentes dos 75% de adesão do PV. A figura 3 mostra que o bloco se espalha verticalmente pelo Basômetro, registrando posições que vão dos 96% de apoio ao Planalto de Fábio Ramalho (PV-MG) aos 25% de Roberto Freire (PPS-SP). A divisão entre as legendas é tão expressiva, que o mais situacionista deputado do PPS – o sergipano Almeida Lima com 56% de adesão ao governo – tem média idêntica ao deputado mais opositor do PV, o paulista Penna. Nesse caso, notamos que Penna (56%) e Freire (25%), presidentes nacionais de seus partidos, representam as posições mais distantes ao governo federal em suas respectivas legendas, lembrando que ambos são eleitos por São Paulo e próximos da ala serrista do PSDB.

Assim, o que esperar dos demais membros desses partidos? No PPS, que registra média de 34%, o fenômeno de descolamento entre liderança e presidência é discreto, pois o atual líder Rubens Bueno (PR) atinge 28%. O problema são três deputados desgarrados, dois deles “adversários eleitorais” das principais lideranças, que podem adotar a “rebeldia do flerte” com o governo como tática de sobrevivência – o paulista Arnaldo Jardim tem 41% e o paranaense Sandro Alex 51%. No PV, com média de 75%, a distância é maior. O atual líder Zequinha Sarney adere ao Planalto em 73% de suas votações, lembrando que em 2010 o maranhense pediu voto para Dilma, afirmando que sua irmã, governadora do estado, não permitia apoio à Marina Silva.

Diante do posicionamento dos líderes e dos respectivos presidentes dos partidos, é possível notar que o comportamento médio das bancadas tende a se aproximar mais das lideranças, fenômeno verificado em quatro dos cinco casos. A exceção é o PT do B, sendo que no PSOL, enquanto presidente e líder estão próximos, Jean Willys parece discretamente mais sintonizado com Chico Alencar. No PSDB e no PPS, líder e presidente também estão juntos, apesar de no segundo a posição “mais radical” de oposição ser emblematicamente ocupada pelo presidente. Por fim, no PV é preciso compreender o que distancia tanto as duas figuras analisadas aqui.

 

 

* Humberto Dantas é doutor em ciência política pela USP e professor do Insper.

 

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