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Artigo: Popularidade – A César o que é de César!

Bruno Lupion

11 de abril de 2012 | 18h59

Carlos Melo*

Os dados não foram abertos, nem temos o suporte de pesquisas qualitativas, mas mesmo assim cabe perguntar se os 77% da popularidade presidencial aferidos pelo Ibope não correspondem a um processo mais amplo, que vai além da personagem e seu governo. Em política real – mais do que no marketing político – é necessário “dar a César o que realmente é de César”, até para que se possa compreender a força real do governante, de modo a não sub ou superestimá-la. Às vezes, a popularidade tem razões que a própria razão desconhece.

É justo inferir que parte desse índice possa ser atribuída a aspectos específicos da economia: o País vive o mais baixo índice de desemprego desde o início da série histórica, em 2002. Pessoas sem emprego são, naturalmente, mais críticas e amargas; colocam na conta da ação (ou inação) do governo boa parte de sua desventura. O contrário, ter emprego é a base da satisfação e isto transmite segurança, otimismo e bem-estar. É como se a euforia dançasse ao ritmo de James Brown: “I feel good (…) I feel nice, like sugar and spice”.

Logicamente, essa sensação eleva a esperança do sujeito, que passa a confiar mais no futuro. Transformado em consumidor, continuará comprando, girando a economia e, assim, produzindo empregos. Nesse ambiente, compara-se o País do presente com seu próprio passado e com o mundo externo, atualmente de extrema turbulência; acredita-se na excepcionalidade do País. É um ciclo positivo. Mas, qual a responsabilidade da presidente nisso tudo?

Relativa; “a César o que é de César”. O quadro atual tem sido pintado ao longo de anos e remonta à melhora geral da economia brasileira, desde o Plano Real. Foi gradativo e teve a grande participação de políticas de distribuição de renda e de estímulo ao crédito, forjadas em governos anteriores. O que permitiu a Dilma assumir o governo em condições imensamente mais favoráveis que Itamar, FHC e Lula, de algum modo também credores desse processo.

É claro, a presidente tem pelejado para não deixar a bola cair: as recentes reduções de juros e a insistência para que o desenvolvimento econômico não sofra refluxo ainda maior do que já tem refluído são um esforço e um mérito seu. Contudo, o processo tem sido mais defensivo – e prudencial – do que de alterações substanciais e mais amplas. Ao menos em seu componente econômico, os louros da popularidade devem ser compartilhados.

E também o desempenho pessoal da presidente – reconhecidamente superior ao do governo – requer maior reflexão. Muita gente que não suporta o PT e nem morre de amores por Lula vê Dilma com simpatia por distingui-la do partido e do antecessor. De fato, é uma personalidade mais comedida, pragmática e nada “palanqueira”. É também menos identificada com a política – a “má política”, como aparece aos olhos da população – e seu estilo e estética diferem-se de Lula. Um certo lustro executivo e gerencial e até um sutil polimento intelectual cai nas graças da classe média de eternas restrições ao antigo metalúrgico, mais popular e carismático.

Entretanto, o apoio do eleitor típico do PT e a liderança popular de Lula estão também contidos no grau de aceitação da atual presidente. Para dezenas de milhões de pessoas, Dilma e Lula são unha e carne e é isto que lhe dá força, sendo Lula seu guardião. Não se verá nas pesquisas, eleitor que aprove Lula e o PT e desaprove a Dilma. Já o contrário será absolutamente natural. PT e Lula somam-se ao estilo Dilma, não subtraem. Já a percepção de menor identidade e maior diferenciação com o PT e Lula pouco ou nada lhe retira; lhe acrescenta. Então, mais uma vez, “a César o que é de César”: parte de sua popularidade deve ser creditada à popularidade e à força política de seus companheiros.

Para alguns analistas, a suposta “faxina no governo” e o “enfrentamento” com os partidos aliados têm sublimado a popularidade. Tal é o desgaste público do sistema, qualquer altercação em relação aos políticos logo cai nas graças da mídia e da massa em geral. Está aí o caso do senador Demóstenes Torres para provar que parcela da população é mesmo suscetível ao discurso moralista e antipolítico.

Mesmo não sendo exatamente uma “faxina”, a cada vaso que se quebrou, a presidente tratou de recolher e dispensar os cacos e assim vários ministros foram defenestrados. Foi aplaudida e, ainda que os “vasos” sejam repostos com exemplares do mesmo jaez, há que se admitir que a comunicação da presidente agiu com eficiência. Além disso, a espécie de freio de arrumação dado no Congresso, ao substituir lideranças, expressou um desconforto com o “toma-lá-dá-cá” rapidamente reconhecido pela população.

Todavia, também é verdade que Dilma se beneficia por contar com maioria no Congresso, à custa do loteamento do governo. É normal, e nem de longe isto significa abalo ou rompimento com velhas práticas. E, ainda que lhe causem problemas, pelo menos até aqui seus “aliados” optam antes pela tensão que pela ruptura. A presidente não vive o horror – horror para qualquer governo – de festivais de CPIs transmitidas ao vivo. Diferente de FHC ou Lula, seus testes foram incomparáveis à sangria de batalhas anteriores. Nem a tísica oposição que enfrenta — perdida em seu labirinto – se assemelha à agressividade de outros tempos.

A fortuna de Dilma difere substancialmente dos percalços de seus antecessores e sua virtù, por outro lado, ainda não pôde ser testada. Sua condição de partida muito mais favorável e seus duelos públicos muito mais tênues, até aqui não dão musculatura mais rija à popularidade o que também a torna pouco testada. No que se refere à implantação de um projeto ou à rinha mais virulenta das disputas políticas, em que pese o já quase o ano e meio de mandato, seu governo nem bem começou.

Os tais “feel good factors” ajudam, mas não necessariamente lhe dão força para avançar numa agenda transformadora ou pelo menos de aprofundamento do processo que a beneficia. Isto deveria suscitar antes preocupação que triunfalismo: não se baseando em projeto (FHC), nem em carisma (Lula), a manutenção da popularidade de Dilma depende muito menos de seus atributos que do jogo dos contrários: o campo econômico – sobretudo, o ambiente externo –, a sustentação precária da base e a passividade da oposição. Nesse jogo de damas, em que pese a popularidade, Dilma joga defensivamente.

*Carlos Melo é cientista político e professor do Insper. Autor de “Collor, o ator e suas circunstâncias”, escreve quinzenalmente para o AE News.

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