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Artigo: CPI, “Pelé no banco” e “São Lázaro”

Redação

27 de abril de 2012 | 17h37

Por Carlos Melo*

 

O ambiente é de tensão e suspense; o caldeirão de boatos ferve e produz insinuações de todos os gostos. Mas, a leitura atenta da mídia, onde tudo é fragmentado, permite ainda assim juntar cacos: nem os partidos sabem ao certo onde tudo isso vai dar; o que parece certo é que há conluios entre contraventores e autoridades, corrupção atrelada a financiamentos de campanhas; crime organizado associado à política. E ao mesmo tempo, há também oportunismo de todos os tipos. Muitas zonas de sombra e pouca luz. O clichê é inevitável: a CPMI “do Cachoeira” pode dar em tudo, inclusive, nada.

Não porque CPIs terminem invariavelmente em pizza. Ao contrário do que se imagina, elas apuram e sugerem medidas, que é o limite de seu papel. Não raro, vão além das expectativas; implicam envolvidos e encaminham propostas a quem de direito. À exceção da “CPI do Banestado” — que terminou sem sequer um relatório –, CPIs como “PC Farias”, “Anões” e “Correios” começaram desacreditas, mas ao final e a cabo significaram mudança. E se ninguém foi para detrás das grades é menos por responsabilidade dos parlamentares que do Ministério Público ou Judiciário.

No entanto, o que torna esta CPI mais imprevisível é a complexa teia de interesses e relacionamentos nela abrigados; a variedade de atores, poderes e personagens supostamente envolvidos. As denúncias que “pingam” na imprensa apontam para esquemas muito maiores que “malfeitos” ou “relações perigosas” entre parlamentares falsamente moralistas e contraventores; entre governos e empreiteiras. As goteiras indicam a existência de um manancial de práticas políticas escusas, sistematicamente mapeado ao longo de anos pelas operações Monte Carlo e Las Vegas, baseadas em sofisticadíssimos métodos de investigação e em aparelhagem ultramoderna, como é o caso do “Guardião” – a super escuta utilizada pela PF.

De modo que, algo relativamente inédito nesta CPI, a investigação já está quase toda feita; tanto a Polícia Federal quanto o Ministério Público já avançaram em seus campos; as investigações partiram dali. A mina de onde brotam as denúncias está repleta, portanto; é moderna, profissional, meticulosa e detalhista – nada a ver com parlamentares travestidos de “Inspetores Clouseau”. Ao Congresso restará o papel de transformar (ou não) isso tudo em escândalo. E isto não será necessariamente ruim, para a sociedade.

O que hoje se encontra protegido por segredos de justiça, nas mãos dos políticos se transformará em munição pesada para todo tipo de disputa, pressão, negociação de interesses paralelos, muitos inconciliáveis — viva os “interesses inconciliáveis”! As goteiras tendem a se tornar cachoeiras e mais à frente, na contradição de disputas e desafetos, podem se converter em tsunamis. Haverá controle?

Provavelmente, não. O governo não demonstra nem coordenação nem habilidade para dirigir o processo e sufocar essas disputas. Sua base é até mais contraditória entre si do que em relação à oposição. Ademais, há uma miríade de sites, blogs e redes sociais que disputarão o “furo” e a primazia pela revelação de imoralidades. Nesse ambiente, colher informações será fácil; contê-las tende a ser praticamente impossível. Na época da “CPI do PC”, sequer Internet existia.

Possibilidades de acordos e conchavos existem, é claro. Mas, dificilmente se dará internamente, nesse ambiente confuso e comprometido. Vetos cruzados, munição trocada, podem conter o tiroteio, mas basta que um “desavisado” qualquer se empolgue e resolva ser consequente com o “doa a quem doer”, assinalado por Lula; ou “o Brasil cansou”, registrado por FHC.

Mais provável, é que o milagre da conciliação, se houver, se dê pelas mãos de advogados, operadores externos ao sistema político, experientes e tarimbados. E também muito bem pagos.

Deixando os impasses da CPI, passamos ao mais recente DataFolha. A pesquisa não só confirma que Dilma bate recordes de popularidade, como também que o ex-presidente Lula é, aos olhos de hoje, favorito para a disputa de 2014. O quadro não expressa novidade: que Dilma – por motivos diversos – vinha bem não surpreende ninguém. Menos ainda é de admirar que Lula, em curto período, voltasse a frequentar a lista da qual, na verdade, nunca esteve de fora.

Desde os primeiros movimentos de viabilização do nome Dilma, era possível supor que na estratégia do ex-presidente coubesse a hipótese de levantar-se, dar uma volta e sentar-se, novamente, na mesma cadeira. Quem não se deixou cegar pela tese estapafúrdia do “terceiro mandato” percebia que a hipótese, desde a concepção da sucessora, esteve o tempo todo no baralho. “Queremismo” revisitado, qual o “Queremos Getúlio”, de 1950.

O destino e a doença, no entanto, tornaram esse quadro ao mesmo tempo menos previsível e mais dramático. Menos previsível porque, com afastamento de Lula, o sistema político ficou mais indócil, confuso e desorganizado; as guerras na base se estabeleceram e interesses antes periféricos começaram a se deslocar para o centro. O maior exemplo é a desenvoltura com que hoje o governador de Pernambuco frequenta as articulações de 2014. Mais dramático porque, afinal, não há nada de maior apelo político-emocional do que o enfrentamento de um câncer. Após superá-lo, Lula não apenas é a grande liderança que deixou o poder há pouco mais de um ano, como também assume ares de semideus; quem sabe, Santo.

Claro, Dilma é a primeira da fila, a titular. Mas, continuará sendo apenas na medida em que Lula precise ou possa continuar no banco. Se o time estiver ganhando, não se mexe; não carecerá substituição. De todo modo, já se disse isto, será “um Pelé no banco”.

O quadro é mais uma “flechada em São Sebastião” para uma oposição já combalida, rachada e sitiada em seu próprio labirinto. Há quem aponte, sem exageros, que a oposição está na UTI. O PSDB, consumido por disputas internas parece madeira que cupim comeu; esfarela-se. O DEM… Bem, o DEM demorará a superar o trauma Demóstenes, se é que superará. Times de futebol e amores se desfazem, por que com partidos seria diferente?

Saídas, alternativas? Difícil dizer; forjar um novo discurso, colocá-lo na boca de um candidato e viabilizar esse candidato, aos olhos de hoje, não é coisa simples. Sobretudo, considerando as condições gerais do País, do lulismo e da própria oposição. Claro, aos olhos de 2014, pode ser diferente. Mas, não se constrói isso tudo do dia para noite. Ex-post é fácil, mas a construção dessa candidatura deveria ter se dado já em 2010; ter-se-ia ganho quatro anos. Uma leitura incorreta do processo – mais uma – fez a história que todos conhecemos.

Agora, além de contar com a sorte própria, os oposicionistas terão que torcer por tropeções do governo e, pior, percalços no caminho do País. Assumir o papel do quanto pior melhor é desgastante; afinal, ninguém torce pelo palhaço cuja alegria é ver o circo pegar fogo.

Mais que na UTI, a oposição parece desencarnar. Só mesmo um “Jesus Cristo” como que a gritar: “Lázaro, levanta-te e anda!” para que o corpo reaja. Jesus Cristo baixar à terra é questão de crença. Difícil mesmo é “Lázaro” escutar; Lázaro tem mania de ouvir apenas o que quer!

 

*Carlos Melo é cientista político e professor do Insper. Autor de “Collor, o ator e suas circunstâncias”, escreve quinzenalmente para o AE News.

 

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