O Globo: Escolas de samba reagem à proposta de candidato do PSOL

Lilian Venturini

24 de agosto de 2012 | 12h54

Por O Globo

RIO – O deputado estadual Marcelo Freixo, candidato a prefeito pelo PSOL, causou polêmica no mundo do samba e no meio político ao propor que a Secretaria municipal de Cultura assuma o controle do carnaval e só aprove financiamento de enredos de escolas de samba com contrapartida cultural. Ao defender a ideia, ontem em entrevista no “RJTV 2″, ele criticou, sem citar nominalmente, o enredo de 2013 do Salgueiro, que trata de fama e celebridades e terá o patrocínio da revista “Caras”.

A iniciativa foi interpretada por alguns como censura, mas já vem de carnavais passados os questionamentos de sambistas aos enredos patrocinados. Freixo ainda prometeu tirar o controle do carnaval da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa).

Nas escolas de samba as declarações criaram mal-estar. Desde a noite de quarta-feira, Freixo tem sido alvo de ataques nas redes sociais. Márcia Lage, carnavalesca do Salgueiro, afirmou, em sua página do Facebook, que o deputado quer “moralizar o carnaval”:

— Ele se referiu ao enredo do Salgueiro como se fosse uma aberração — disse.

A presidente da escola, Regina Celi Fernandes, também condenou as declarações. Segundo a assessoria de imprensa da agremiação, o Salgueiro deve lançar um manifesto de repúdio aos comentários do candidato.

Fernando Pamplona, carnavalesco responsável por enredos que deram campeonatos para o Salgueiro, defendeu Freixo:

— As escolas se vendem muito para barato para os patrocinadores. Entregaram tudo para a Liesa, que faz o que bem entende, inclusive legalmente. A coisa entrou numa comercialização tão grande que há cinco ou seis anos eu não vejo mais carnaval. Que façam com cunho cultural para resgatar o carnaval!

Jornalista e escritor de samba, Fabio Fabato, defendeu Freixo:

— A partir de agora, só vamos assistir a enredos sobre Caras, Rock in Rio, Cuiabá, Coreia do Sul, cavalo mangalarga, campanha pelo Petróleo? Para mim, tem que ser o seguinte: exaltação direta ou indireta a uma marca, caso de iogurte, por exemplo, não deveria receber dinheiro — disse Fabato, ao lembrar o desfile da Porto da Pedra, que foi rebaixada este ano, após levar o “iogurte” para a Sapucaí.

O presidente da Liesa, Jorge Castanheira, disse que as ideias Freixo põem em risco a organização do evento:

— Um evento dessa envergadura não pode correr o risco de aventuras. Entendemos que o candidato deve se aprofundar no tema carnaval.

O carnavalesco Paulo Barros, da Unidos da Tijuca, afirmou que Freixo apelou para a censura e foi “infeliz”:

— Interferência no que o artista está fazendo está fora de cogitação. Isso é censura. Podem até existir outras formas de administrar o carnaval, mas a Secretaria de Cultura interferir na criação seria uma piada— disse Barros.

O prefeito Eduardo Paes (PMDB) não comentou o assunto. Mas a candidata do PV, Aspásia Camargo (PV), o o candidato do PSDB Otávio Leite (PSDB), não pouparam o deputado:

— Criar uma censura prévia na secretaria de Cultura para avaliar enredos de escola de samba, segundo um critério do que é politicamente correto, é uma política dirigista, que lembra os tempos do stalinismo — disse Aspásia.

Leite classificou a declaração de Freixo de “lamentável e autoritária”:

— O candidato revela a essência do seu programa de governo de intervenção total do Estado na liberdade de pensamento — disse.

Ontem, Freixo manteve o tom e voltou a criticar outros enredos:

— Dei o exemplo da Ilha de Caras, mas poderia falar dos enredos sobre o Rock in Rio (Mocidade) e Coreia (Inocentes de Belford Roxo), temas que não tem contrapartida cultural — afirmou.

Freixo negou que sua proposta seja censura e argumentou que as ideias saíram de um manifesto assinado por vários personalidades do samba.

— Censura seria se eu determinasse o tema. As escolas podem escolher o enredo que quiserem. Mas,, para receber dinheiro público, tem que ter contrapartida cultural. E tem que ter prestação de contas desse dinheiro.

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