O Globo: Avanço de candidatos do PSB pode levar à ruptura com PT

Lilian Venturini

31 de agosto de 2012 | 12h03

Por O Globo

As novas pesquisas divulgadas esta semana pioraram o clima entre PSB e PT, e, por tabela, a relação entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o governador de Pernambuco e presidente do PSB, Eduardo Campos. Em Recife, a subida de Geraldo Júlio, o candidato de Campos que empatou com Humberto Costa (PT) e trabalha para vencer no primeiro turno, levou a um acirramento tal que há quem fale na possibilidade de ruptura da histórica parceria entre as legendas a partir de novembro. Soma-se à situação de Recife, a manutenção da larga vantagem de Márcio Lacerda (PSB) sobre Patrus Ananias (PT) em Belo Horizonte. O senador Jorge Viana (PT), interlocutor assíduo de Lula, não esconde o incômodo:

— O presidente do PSB está deixando nessa história de Recife o pior sentimento para a relação PT-PSB, que é o sentimento da ingratidão. O presidente Lula merecia um tratamento muito melhor do que esse do presidente do PSB.

Segundo Viana, o PSB não teria tido qualquer motivo para reclamar do PT:

— O PSB é um parceiro privilegiado na nossa história de governo. O que o PT fez em Belo Horizonte pelo PSB em 2008 ninguém mais faria. Lá há uma figura chamada Aécio Neves, simbólico, e lá aceitamos fazer uma aliança com aval da direção nacional para o PSB governar Belo Horizonte. Além disso, a presidente Dilma tem dado um tratamento privilegiado para os governos de Pernambuco e do Ceará. Estamos em uma eleição paroquial, mas quando as paróquias são importantes, é preciso os cardeais agirem. E os cardeais do PSB jogaram mal.

O plano inicial de Campos — incensado por Lula — era ser opção como sucessor de Dilma em 2018, mas ele teria se convencido de que jamais conseguirá o apoio do PT para o Planalto.

— Depois das eleições é que a gente vai poder avaliar como a aliança vai ficar. O Eduardo tinha uma boa relação e continua tendo muito respeito pelo presidente Lula, mas está machucado com o PT — ilustra um aliado do governador.

Campos tenta publicamente minimizar o rompimento com Lula. Seus aliados mudaram o tom e agora falam em apaziguamento.

— Esse esgarçamento será absolutamente superado após o processo eleitoral. Agora, é natural que o partido se fortaleça e ocupe espaços que antes eram ocupados por outras legendas —disse ontem o senador Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), num tom mais ameno do que o adotado no início da semana.

Até o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), adversário mordaz do governo Lula e neoaliado de Campos, evita ampliar o conflito:

— Eu sou oposição a Lula, ele (Eduardo Campos) não é. É forçar muito a mão dizer que (o rompimento) é uma coisa contra o Lula.

geraldo júlio: De leiturista a candidato

Nos meios de comunicação, o racha se transformou em guerra. Lula aparece no programa eleitoral de Costa criticar o “choque de gestão” de Campos. O ex-ministro José Dirceu acusou, em seu blog, o governador pernambucano de estar cada vez mais afinado com o tucanato. O conflito extrapola a capital pernambucana e se espalha também pelo sertão. O presidente nacional do partido, Rui Falcão, que esteve anteontem no interior de Pernambuco, confirma a tensão:

— O que houve entre o PT e o PSB foi uma ruptura de acordos que já tinham sido estabelecidos. Em Belo Horizonte, por exemplo, queríamos continuar apoiando o PSB, mas preferiram o Aécio. E em Recife, romperam com a Frente Popular — disse o presidente nacional do PT.

Apesar do clima, Rui Falcão disse esperar que os socialistas continuem na base aliada do governo da presidente Dilma Rousseff:

— Temos aliança com o PSB em várias cidades; e, no governo federal, eles compõem nossa base. Espero que continue assim.

O tom adotado por Dirceu é mais agressivo:

“É até certo ponto surpreendente que o governador de Pernambuco tenha o choque de gestão como principal mote da campanha de seu candidato. Choque de gestão é tucano e aecista, invenção do senador Aécio Neves”.

Na TV, o ex-presidente Lula diz, no programa de Costa, que, na política, usa-se “palavras mágicas” como o termo “choque de gestão”.

Em Pernambuco, o PSB tentou mostrar tranquilidade com a crítica de Lula. O presidente estadual da legenda, Sileno Guedes, minimizou a crise e disse que o conflito se deu por uma “falta de unidade do PT em Recife”.

No olho do furacão está o candidato socialista Geraldo Júlio de Mello, que registrou avanço de 22 pontos nas intenções de voto para a prefeitura de Recife, segundo pesquisa Datafolha. De perfil técnico, entrou na corrida sucessória completamente desconhecido do eleitorado.

Aos 17 anos, Geraldo Júlio andava de porta em porta, como leiturista, para conferir o valor das contas da Companhia Pernambucana de Saneamento. Aos 21, entrou por concurso público no Tribunal de Contas de Pernambuco. Três anos depois, era convocado para trabalhar no governo do Estado, na gestão Miguel Arraes. Passou em seguida por duas secretarias municipais, uma no Recife e outra no interior. Em 2007 foi convidado para a Secretaria de Planejamento e Gestão do Estado e tornou-se um dos mais poderosos secretários do governador Campos.

Para se tornar conhecido, o socialista enfrentou uma verdadeira maratona, antes do início do horário eleitoral. Participava de até nove eventos diários, subindo e descendo morro, percorrendo alagados, visitando instituições da classe média. Na TV, ganhou a companhia constante de Campos.

Geraldo Júlio prefere não fazer cálculos quanto a uma eventual vitória no primeiro turno:

— Para nós é importante ganhar as eleições, seja no primeiro ou segundo turno, e fazer as mudanças que a cidade merece.

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