Transparência demais é burrice?

fernandogallo

26 de novembro de 2012 | 20h46

“Você já imaginou se todos os governos transmitissem ao vivo as suas reuniões ministeriais? Se houvesse uma câmera ao vivo transmitindo de dentro dos gabinetes do presidente e dos ministros? Você acha que essa transparência seria benéfica ou maléfica? O governo seria mais democrático por se expor dessa forma? Ou um governo mais fragilizado?”

Saiu-se com este raciocínio o marqueteiro do PT e da Presidência da República, João Santana, em entrevista publicada nesta segunda-feira pela Folha de S. Paulo, quando foi indagado sobre o que pensava a respeito do julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal e seu impacto nas eleições de 2012.

Santana sustenta que “mesmo sendo transparente, uma corte deve ter um certo recato”.

Deixa claro, sem que o diga explicitamente, que concorda com aquele axioma largamente atribuído ao ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares de que “transparência demais é burrice”.

Você, leitora, leitor, concorda com João Santana? O que acharia se as reuniões ministeriais fossem transmitidas pela ao vivo? Há algum risco se houver muita transparência nos governos?

Abaixo, o referido trecho da entrevista.

P.S. Depois do turbilhão das eleições, gradualmente começamos a devolver ao Públicos seu ritmo normal.

(Fernando Gallo)

Folha – O sr. está dizendo que toda a exposição do mensalão na TV se resumiu a esse impacto circunstancial?

Sim. Mas eu gostaria de fazer uma observação adicional. Nós todos somos atores políticos e sociais. O teatro, os ritos são indissociáveis da política e, por consequência, da Justiça, que é um ente político. Os meios modernos de comunicação levaram esta teatralização ao paroxismo. E o julgamento do mensalão levou ao paroxismo a teatralização de um dos Poderes da República. O que isso trouxe de bom ou de ruim, o tempo dirá. Mas sem querer dar conselhos, é bom lembrar uma coisa para os ministros membros do STF: o excesso midiático intoxica. É um veneno. Se os ministros não se precaverem, eles podem ser vítimas desse excesso midiático no futuro. E com prejuízos à instituição.

Como?

Mesmo sendo transparente, uma Corte deve ter um certo recato. Você já imaginou se todos os governos transmitissem ao vivo as suas reuniões ministeriais? Se houvesse uma câmera ao vivo transmitindo de dentro dos gabinetes do presidente e dos ministros? Você acha que essa transparência seria benéfica ou maléfica? O governo seria mais democrático por se expor dessa forma? Ou um governo mais fragilizado?

Mas o sr. acha que deve ser interrompida a transmissão das sessões do STF pela TV?

Não estou dizendo isso. Mas apenas que os ministros, como atores, tenham a dimensão do que isso significa. Administrar a Justiça com transparência não significa, necessariamente, fazer um reality show. Qualquer pessoa precisa se precaver com a atuação. Até um cirurgião, quando filmado, pode ter interferência na sua atuação.

Como podem sofrer os ministros do STF pela exposição extremada?

O ego humano é um monstro perigoso, incontrolável. Toda vez que você é levado a uma superexposição sua tendência é sempre sobreatuar. Essa é a questão central.

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