Em um mês, governo federal recebe 1,1 mil pedidos de informação com identidade reservada

Se considerado o universo total de pedidos no mesmo período - 8.196 -, pode-se dizer que 14% das solicitações foram feitas de maneira anonimizada

Luiz Fernando Toledo

05 Dezembro 2018 | 16h42

SÃO PAULO – O governo federal já recebeu 1.173 pedidos de acesso a informações públicas em que os cidadãos que solicitaram esses dados pediram para ter a identidade preservada. Os dados foram obtidos pelo Blog Publicos por meio da Lei de Acesso à Informação e se referem ao período entre os dias 5 de novembro de 2018, quando esta ferramenta passou a ser disponibilizada, e o dia 30 de novembro.

Se considerado o universo total de pedidos no mesmo período (8.196), pode-se dizer que 14% das solicitações foram feitas de maneira anonimizada.

A proteção de dados dos requerentes é considerada um avanço da transparência governamental por parte de especialistas, já que diversos estudos  mostram que, quando o governo sabe quem fez a pergunta, pode haver viés na resposta e até ameaças aos cidadãos. 

Só governo federal permite proteção de dados do requerente

Este tipo de proteção, no entanto, só está disponível no âmbito do governo federal. No fim de novembro, um grupo de entidades da sociedade civil e ativistas pela transparência pública publicaram uma carta aberta em que pedem que Estados e municípios também façam adesão ao dispositivo. O documento é encabeçado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).

Leia abaixo a íntegra da carta:

Carta aberta: estados e municípios devem permitir pedidos de informação anônimos

O Brasil deu um importante passo no direito ao acesso à informação nas últimas semanas. Em agosto, a Controladoria-Geral da União (CGU) informou que criaria um dispositivo para proteger os requerentes de acesso à informação, garantindo que eles pudessem pedir dados a qualquer órgão do governo federal sem precisar se identificar. 

Tal medida, defendida amplamente por especialistas, foi implementada oficialmente em novembro de 2018 e já é uma realidade com o objetivo de proteger a integridade de quem precisa desses dados públicos, bem como evitar viés nas respostas.

A mudança é parte de um compromisso acordado pelo Brasil ao fazer parte, como membro fundador, da Open Government Partnership (OGP), iniciativa que busca maior transparência governamental nos países que dela participam.

Mas essa realidade, até então, é válida somente para o governo federal. O Brasil tem mais de 5 mil municípios, 26 Estados e um Distrito Federal, todos eles submetidos à Lei de Acesso à Informação (LAI). 

Não é incomum encontrar relatos de ameaças e pressões contra jornalistas e pesquisadores que tentam obter documentos que possam, de alguma maneira, prejudicar políticos ou governos locais. Um amplo histórico desses casos pode ser encontrado na publicação Identidade Revelada, da entidade internacional Artigo 19. 

Um dos exemplos citados no estudo aconteceu em novembro de 2017 e mostra como o então chefe de gabinete da Prefeitura de São Paulo tinha conhecimento sobre quem eram os requerentes dos pedidos de informação sobre os quais ele era um dos responsáveis por avaliar. 

Conforme amplamente documentado em artigo dos pesquisadores Karina Furtado Rodrigues, professora do Instituto Meira Mattos, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, e Gregory Michener, da Fundação Getulio Vargas (FGV-Rio), a necessidade de identificação do requerente pode ser uma barreira ao acesso à informação. “A identificação obrigatória cria o potencial para a discriminação ou represália do requerente, gerando fortes desincentivos para se pedir informações aos governos”, escrevem. 

Na prática, isso faz com que o requerente busque maneiras informais de se manter no anonimato, seja usando um e-mail ou uma identidade que não é dele, seja pedindo a instituições que façam os pedidos em seus nomes. Estas práticas, no limite, dificultam o acesso à informação e instauram um clima de de medo e insegurança, contrapondo as boas práticas de transparência governamental observadas em outros países.

Diante das medidas já tomadas pelo governo federal e respaldadas na legislação atual, as instituições e pessoas que subscrevem esta carta pedem atenção dos governos estaduais e municipais para que adequem seus canais de transparência para proteger seus cidadãos e garantir, cada vez mais, um acesso à informação imparcial e de qualidade.

Assinam: 

Abraji – Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo
Artigo 19
Elda Valim – Movimento pela Moralidade Pública e Cidadania/ONG Moral
Fiquem Sabendo – O Brasil em Dados
Frente pelo Controle e Contra a Corrupção
Gênero e Número – Narrativas pela Equidade
Gregory Michener (Pesquisador / Programa de Transparência Pública da FGV-Rio)
Karina Furtado Rodrigues (Professora da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército)
Karine Oliveira – Instituto Soma Brasil
Lucas Lago – Pesquisador do Centro de Estudos Sociedade e Tecnologia da Universidade de São Paulo e do Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo
Luiz Carlos V. Silva – Transparência Hacker-DF
Marcos Silveira – Datapedia
Maria do Socorro Mendonça – Instituto Nossa Ilhéus 
Michael Freitas Mohallem (professor e coordenador do Centro de Justiça e Sociedade da FGV-Direito Rio)
Open Knowledge Brasil
Transparência Brasil