As más notícias que trago do Tocantins

fernandogallo

10 de julho de 2012 | 07h34

Acabo de voltar de Palmas (TO), onde fui fazer umas reportagens para o Estadão, e lamento dizer que trago algumas más notícias.

Nada que diga respeito à acolhida das pessoas com quem tratei – ô povo hospitaleiro! – nem à culinária local – volto sonhando com o delicioso tucunaré tocantinense!

As más notícias que trago são da Junta Comercial do Tocantins (Jucentins). Sempre elas, as juntas comerciais.

Vocês devem se lembrar de que já falei aqui no blog do alto custo e da burocracia da Junta de Goiás (Jucego).

Pois na Jucentins a situação não é diferente. Aliás, é. É até pior.

Cheguei à junta tocantinense com uma missão simples:

– Moça, boa tarde. Preciso solicitar uma certidão simples de uma empresa registrada em Palmas. Como faço?
– O senhor imprimiu a guia?
– Não. Qual guia?
– Do site.
– Não imprimi.
– Tem que imprimir.
– E vocês não imprimem aqui?
– Não.
– E como é que eu faço?
– Tem que ir numa lan house. Para certidão simples, o senhor tem que emitir um boleto no valor de R$ 24,00 e pagar no Banco do Brasil.

“Tem que ir numa lan house”. R$ 24,00. Banco do Brasil.

Bom, lá vai o repórter até a lan house, tenta achar o diacho da guia no site da Jucentins (não está nem um pouco fácil de encontrar), imprime, paga e vai até a agência do Banco do Brasil mais próxima. Uma hora e quinze minutos na fila para pagar um boleto.

Então retorna o repórter à Jucentins e faz a solicitação.

– O senhor pode retirar amanhã depois das 14hs.

Ainda me dei conta de que tive sorte. Podia ser que tivesse pagado o boleto e a empresa não estivesse registrada lá, mas em algum cartório.

E toca voltar no dia seguinte para buscar a certidão. Foram R$ 24,00 da certidão, mais uns R$ 80,00 de táxi (as viagens ida e volta à Jucetins; as idas e voltas à lan house e ao banco fiz a pé), R$ 104,00, fora as três horas que perdi no primeiro dia e a meia hora que perdi no segundo para fazer os trâmites.

Também já comentei aqui que a Junta Comercial de São Paulo (Jucesp), embora tenha um sistema horroroso (que exige CPF, senha e captcha) para fazer uma consulta, disponibiliza online, instantânea e gratuitamente certidões completas de todas as empresas nelas registradas, com dados desde 1992 e informações relevantes como todas as alterações societárias (algumas juntas comerciais, como a Jucego, cobram, e bem caro, por consultas e certidões de cada alteração societária).

Por que estou batendo nesta tecla?

Primeiro porque acho que documentos públicos não devem ser cobrados e há maneiras de disponibilizar na internet e de graça as informações – a Jucesp, mesmo com suas imperfeições, é uma prova disso.

Segundo porque a rápida disponibilização das informações (públicas!) pode fazer a diferença na cobertura jornalística de um caso de repercussão nacional, como o que envolve Carlinhos Cachoeira e diversos políticos, principalmente no caso dos jornais diários.

Aí está um dos principais motivos pelos quais as juntas e cartórios cobram caro e trabalham com uma burocracia absurda.

Vamos continuar cobrando o barateamento dos custos da emissão de documentos públicos e a remoção da anacrônica cultura burocrato-cartorial no Brasil.

No mais, o meu abraço aos hospitaleiros tocantinenses. Vou voltar aí pra conhecer o Jalapão (na foto acima)!

(Fernando Gallo)

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