As gravações de John Kennedy e a Lei de Acesso

fernandogallo

10 de maio de 2012 | 06h07

Uma parte importante do que se sabe a respeito das decisões tomadas por John F. Kennedy como presidente dos Estados Unidos tem como base gravações dos diálogos por ele travados no Salão Oval da Casa Branca.

Em 1962, JFK mandou instalar um sistema secreto de gravação de voz, que registrou, durante pouco mais de um ano, mais de 260 horas de diálogos mantidos pelo presidente até os dias que antecederam seu assassinato em Dallas.

Entre os primeiríssimos registros está uma conversa de Kennedy com o então embaixador dos EUA no Brasil, Lincoln Gordon, em 30 de julho de 1962, na qual ambos tramaram a queda do então presidente brasileiro, João Goulart.

Sabe-se, deste diálogo, que Kennedy e Gordon trataram de uma quantia de 8 milhões de dólares para interferir nas eleições seguintes, e acertaram que o governo americano não seria hostil a uma intervenção militar, desde que ficasse claro que servisse para combater a esquerda.

Mas talvez as gravações mais importantes se refiram ao episódio que levou a Guerra Fria ao seu tensionamento máximo, a Crise dos Mísseis cubanos. Muito do que se sabe hoje dos treze dias que abalaram o mundo está documentada nas fitas que JFK gravou no período.

Há outros registros históricos nos arquivos: diálogos sobre a guerra no Vietnã, a campanha democrata de 1964 e os últimos dias de Kennedy à frente da presidência.

As conversas de JFK foram armazenadas pela Biblioteca e Museu John F. Kennedy, e começaram a ser tornadas públicas em 1993.

Essa breve digressão tem duas serventias. A primeira é ilustrar a necessidade do registro e do armazenamento de dados. A discussão sobre a Lei de Acesso à Informação se restringe muito a uma das pontas, que é a liberação dos dados, mas um dado só pode ser liberado se ele foi registrado e armazenado.

A segunda é mostrar, por meio de um exemplo concreto e importantíssimo, como é fundamental que passemos a tratar do registro dos processos decisórios.

Não seria incrível se tivéssemos, no futuro, áudios de reuniões da presidente Dilma Rousseff nas quais pudéssemos saber exatamente como a presidente se comportou no episódio da “faxina ética” no ministério dos Transportes – o que disse, com quem conversou em seu gabinete, etc. -, ou como definiu com seus auxiliares os critérios do Brasil sem Miséria, ou ainda que diálogos foram travados no gabinete durante o episódio Carlinhos Cachoeira?

Se Kennedy fez, e no auge da Guerra Fria, por que não podemos nós?

PS. Agradeço ao Guilherme Canela, da Unesco, que me chamou a atenção para esta discussão e me fez estudar um pouquinho para escrever este post.

(Fernando Gallo)

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