Pandemia e SUS devem ficar fora do debate eleitoral

Pandemia e SUS devem ficar fora do debate eleitoral

Mário Scheffer

10 de fevereiro de 2022 | 15h17

A onda da Ômicron deve arrefecer, mas o curso da pandemia no Brasil até as eleições de outubro é incerto.

No final do ano passado, a vacinação em massa alimentou esperanças de um retorno normal, otimismo interrompido pela disseminação da nova variante.

Médico abre a porta da sala de emergência em um hospital

Negação é sintoma psicossocial da fadiga pandêmica, que repercute também nas tensões em torno de medidas sanitárias ainda imprescindíveis. Foto: Werther Santana/Estadão

A apreensão atual será substituída por nova sensação de controle, o que levará muita gente a não querer ouvir falar de covid tão cedo.

Negação é sintoma psicossocial da fadiga pandêmica, que repercute também nas tensões em torno de medidas sanitárias ainda imprescindíveis.

Boa parte da população atribui a Bolsonaro mortes evitáveis e o suplício prolongado da pandemia. Já uma fração menor da sociedade, mas não insignificante, isenta o presidente, associando agruras às medidas tomadas por governadores e prefeitos.

Úteis ao centrismo, falsas equivalências esterilizam temas que mereceriam estar mais claramente posicionados no debate eleitoral.

O grande apagão de testes, o retorno do fanatismo pró cloroquina e o boicote oficial à vacinação infantil ratificaram a tirania da desordem que conduz o Ministério da Saúde.

Os senadores Renan Calheiros e Randolfe Rodrigues correram ao Twitter para defender novo inquérito no Senado, certos de que a CPI anterior deu popularidade a membros da comissão, mas não se transformou na bala de prata.

Primeiro, não abriu caminho ao impeachment, interceptado nos biombos de Aras e Lira, no clamor de Fux por “estabilidade e tolerância”, e na preferência de opositores pela disputa direta com Bolsonaro, de modo a reduzir surpresas a favoritismos.

O crime de prevaricação do presidente no episódio da compra da vacina indiana Covaxin, uma das linhas caras à comissão do Senado, levou balde de água fria da Polícia Federal.

O Tribunal de Haia, na Holanda, só recebeu nesta quarta-feira, 9/02, a documentação da CPI para que julgue o alegado crime de Bolsonaro contra a humanidade, o que correrá em sigilo, sem prazo de conclusão.

Com o para-fogo da Procuradoria Geral da República, presidente e ministros de Estado não serão incomodados nos próximos meses em ações penais derivadas do relatório da CPI.

Gente de menor escalão, do empresariado e da burocracia de Brasília, passou a figurar em 12 investigações abertas pelo Ministério Público no Distrito Federal. Serão processos demorados.

Mais de três anos depois do rompimento da barragem de Brumadinho, que matou 270 pessoas em 2019, o que motivou a abertura de duas CPIs, uma na Câmara e outra no Senado, muitos daqueles apontados como responsáveis pela tragédia ainda não responderam pelos crimes atribuídos.

Em eleições recentes, como no Chile e Portugal, a elevação da covid ao centro do debate permitiu não apenas expor culpados pelo agravamento da crise sanitária, mas foi o estopim para testar nas urnas a atualização de projetos sociais-democratas de justiça e bem-estar.

A pandemia, geradora de mal-estar social, tem levado candidatos a presidente, principalmente na Europa, a firmar compromissos com serviços públicos de saúde eficientes, ampla proteção social, tributação redistributiva e pleno emprego com direitos trabalhistas assegurados.

A medir pelas chapas em montagem, na melhor das hipóteses o social-liberalismo será o ponto de chegada após a eleição no Brasil.

Quem vai ser menos fiscalista versus quem vai privatizar a Petrobras é um duelo que assumirá maior relevância do que a discussão sobre o futuro do SUS.

O sistema de saúde universal sempre foi assunto aborrecido para candidatos num país em que sindicatos, empresários, políticos, juízes, promotores e funcionários públicos consomem planos de saúde privados.

Expelido das eleições, o SUS vai se tornando cada vez mais uma miragem intelectual desvinculada das classes média e trabalhadora, distante até de movimentos da sociedade civil que poderiam trazê-lo à vida.

Um dos raros consensos no campo dos estudos eleitorais é que desemprego e inflação alta, muito mais do que a insatisfação com saúde e educação, explicam resultados de pleitos majoritários.

Atributos dos candidatos, conjunturas políticas inesperadas e tendência geral do público a ser moderado ou conservador chacoalham eleições, mas o que se repete é o roteiro de penalizar postulantes pela recessão ou recompensá-los pela prosperidade.

E a decisão de voto não é só expressão de preferência esclarecida, é afetada por posição ideológica, fatores pessoais, como gênero e religião, e influenciada por amigos, família e redes sociais.

Traços distintivos das eleições presidenciais brasileiras, alianças subterrâneas e programas superficiais impedem o comportamento prospectivo do voto.

Dificilmente eleitores terão oportunidade de avaliar se candidatos oferecem condições credíveis para que o País supere as crises sanitária e econômica.

Assim, ganha força o voto retrospectivo, mecanismo de rejeição ou retribuição a quem ocupa ou já ocupou o Poder Executivo.

Eleições rasas e plebiscitárias, contudo, embutem um risco. A guerra suja, as manipulações e baixarias podem acabar dando novamente o tom da disputa eleitoral de 2022.

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