O espectro dos médicos cubanos ronda a disputa eleitoral

O espectro dos médicos cubanos ronda a disputa eleitoral

A provocação em torno de Cuba, protótipo da histeria política e do jogo sujo que virão, impede o debate sobre soluções para problemas reais dos brasileiros

Mário Scheffer

05 de maio de 2022 | 12h55

À medida em que a corrida eleitoral avança, Jair Bolsonaro explora táticas que a campanha vitoriosa de 2018 apenas espreitava.

Governo Federal investiu cerca de R$ 783,6 milhões na iniciativa que disponibiliza mais de 4,6 mil vagas em todo Brasil - Foto: Alan Santos/PR

Bolsonaro participa de cerimônia de assinatura de contratos de trabalho do programa Médicos pelo Brasil, mês passado – Foto: Alan Santos/PR

Durante apresentação do programa Médicos pelo Brasil, em 18/04, o presidente sugeriu que Fidel Castro está no inferno (“foi para um lugar bastante quente em 2016”) e que havia espiões entre os participantes do extinto programa Mais Médicos (“ali tinha agente cubano, tinha as vespas negras, o pessoal das forças especiais cubanas”).

Também repetiu o lenga-lenga de que médicos cubanos eram tratados como escravos e “não sabiam absolutamente nada de medicina”.

Na entrevista que concedeu em 26/04, a comunicadores simpáticos à sua pré-candidatura, Lula lamentou a saída dos cubanos: “eles tiraram praticamente 12 mil médicos do Mais Médicos que estavam nos lugares mais longínquos, atendendo pessoas que não conseguiram ir a médicos durante anos, pessoas que morriam por falta de ter acesso a médicos”.

Neste caso, a estratégia, chamada pela campanha de Lula de “defesa do legado” das administrações petistas no governo federal, pode atender aos propósitos do rival. Requenta uma controvérsia que aglutina volumosa base de médicos pró-Bolsonaro, e arrasta a disputa para o terreno da polarização ideológica mais tóxica.

Em 27/04, na Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios, foi a vez de Ciro Gomes entrar na refrega: “O Brasil, em vez de investir na formação do capital humano e mexer nas residências, resolveu atalhar o caminho e importar médico de Cuba. O Brasil precisa importar um quadro profissional de um país menor que o Rio Grande do Sul e mais pobre que o nosso?”

Ao concordar com Bolsonaro, ainda que vagamente propositivo, Ciro mostra o quanto está perdido no acostamento de uma terceira via sem sinalização.

Bolsonaro pretende pautar a eleição, quando abusa da máquina federal, corrói a credibilidade das urnas, ataca o STF e domina as mídias digitais.

Com uma janela de menos de seis meses até outubro, para quem está atrás nas pesquisas, fomentar a “guerra cultural” , que põe adversários na defensiva, pode ser mais eficaz do que debater propostas.

É provável que assuntos sérios, como a saúde, sejam cancelados. Saem a resposta do Brasil à covid e o financiamento do SUS, entram os médicos cubanos.

Ao surgir em vídeo no ato da Avenida Paulista, no dia 1º de maio, em apoio ao deputado Daniel Silveira, Bolsonaro repisou o bordão “venceremos porque o bem sempre vence o mal”.

O espectro do mal a ser combatido pode ser Cuba, mas também algo ligado a aborto, drogas, violência, indígenas, negros, diversidade sexual e de gênero.

É no mínimo curiosa a escolha dos temas de “lacração” da campanha bolsonarista, parodiando a gíria, usada com ironia por simpatizantes do presidente, para se referir a quem faz a defesa dos direitos de minorias.

Nos dias de hoje, Cuba é uma pálida lembrança do comunismo. A irrelevância da mania antivermelho foi atestada pelo patético alinhamento de Bolsonaro a Putin.

Parte da esquerda internacional, coerente com os princípios de solidariedade que admirava na revolução cubana, passou a apoiar os poucos movimentos democráticos locais, que alertam sobre o agravamento da crise do país insular.

Mas, no Brasil, mitos embolorados não dão trégua, terminam por beneficiar a extrema direita em uma eleição que pode se acirrar.

A provocação em torno de Cuba, protótipo da histeria política e do jogo sujo que virão, impede o debate sobre soluções para problemas reais dos brasileiros.

Durante a gestão do próximo presidente, o país terá 670 mil médicos, 300 mil a mais do que em 2013, quando a lei Mais Médicos foi aprovada.

Mesmo com esse aumento espantoso, depois da festa de abertura de cursos de medicina privados, muitos municípios e distritos remotos seguem sem nenhuma assistência médica, ou com alta rotatividade de profissionais.

O que não será resolvido com mais ou menos indivíduos médicos, nem com a reconvocação dos cubanos, do programa anterior, nem com a contratação de brasileiros por CLT, do programa atual.

A falta de médicos levou a situações dramáticas na pandemia, das unidades básicas às UTIs. Na hora de salvar vidas, o que fazia a diferença era a formação e a especialidade, ninguém perguntava a nacionalidade ou vinculação do médico.

Para o País não fracassar novamente na próxima urgência sanitária, ou para levar saúde a locais desassistidos, a solução precisa ser duradoura, a partir das instituições do SUS, com participação das universidades públicas.

É possível inovar na regulação e nos incentivos para deslocar médicos, hoje cada vez mais afastados da atenção primária, concentrados nos grandes centros e no setor privado que não atende o SUS. Há alternativas que podem incorporar novas tecnologias de comunicação em serviços e valorizar integralmente os demais trabalhadores da saúde.

Garantir o direito à saúde no Brasil é totalmente viável, difícil é lidar com os mitos da disputa eleitoral.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.